Última atualização: 30/07/2026 às 12:14
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Panorama do Café mostra que avanço do consumo asiático e crescimento da indústria capixaba devem sustentar o setor no longo prazo, mesmo diante da recuperação da oferta mundial

Café capixaba ganha o mundo. Crédito: Divulgação APEX
Depois de dois anos marcados por restrição na oferta e preços recordes no mercado internacional, o setor cafeeiro começa a entrar em um novo ciclo. A expectativa de uma safra global mais robusta em 2026/27 deve equilibrar a oferta no curto prazo, mas os fundamentos de longo prazo seguem positivos, impulsionados pelo crescimento do consumo na Ásia e pelo fortalecimento do Espírito Santo como um dos principais polos da cafeicultura brasileira.
É o que revela a edição do Panorama do Café – 2º trimestre de 2026, relatório produzido pelo time de Research da Apex Partners, que reúne dados, análises e projeções sobre o mercado mundial, brasileiro e capixaba.
Recuperação da safra muda cenário de curto prazo
Após dois anos consecutivos de déficit de oferta, a expectativa para a safra 2026/27 é de um superávit global entre 7 e 10 milhões de sacas. O aumento da produção tende a reduzir a pressão sobre os preços internacionais, apesar de fatores recentes, como atrasos na colheita e incertezas climáticas provocadas pelo El Niño.
Segundo o estudo, esse movimento representa uma mudança importante para o mercado neste ano, mas não altera a tendência estrutural de crescimento da demanda mundial por café.
China lidera expansão do consumo
O principal vetor dessa transformação está na Ásia. Em pouco mais de duas décadas, a participação da região no consumo mundial passou de 13% para 24%, enquanto a China desponta como o mercado com maior potencial de crescimento.
As importações chinesas saltaram de aproximadamente 131 mil sacas, em 2002, para mais de 6 milhões de sacas em 2025 — um crescimento de 46 vezes no período.
Para avaliar o potencial desse mercado, a equipe de Research da Apex desenvolveu um modelo econométrico que analisou dados de 50 países entre 2002 e 2024. O estudo mostra que, em economias de renda média, como a chinesa, cada aumento de 1% na renda per capita pode gerar cerca de 2% de crescimento no consumo de café.
Com a renda da população chinesa mantendo trajetória de expansão, a expectativa é de que o consumo da bebida cresça entre 4,5% e 10% ao ano.
“Nosso modelo econométrico traduz em números uma tendência que a história já demonstrou na Coreia do Sul: quando a renda cresce, o café deixa de ser aspiracional e vira hábito cotidiano. A China está exatamente nesse ponto de virada”, afirma Orlando Caliman, diretor econômico da Apex Partners.
O relatório lembra que a Coreia do Sul viveu um processo semelhante nas últimas décadas. Hoje, o país registra consumo médio de aproximadamente 3,9 quilos de café por habitante ao ano. Na China, esse índice ainda é de cerca de 0,26 quilo.
Caso os chineses alcancem apenas metade do consumo registrado pelos sul-coreanos, a demanda adicional poderá chegar a quase 40 milhões de sacas por ano — volume equivalente a cerca de 23% do consumo global atual.
Além do crescimento da renda, outro fator acelera essa mudança: a rápida expansão das cafeterias no país, que já reúne cerca de 80 mil estabelecimentos.
Espírito Santo amplia protagonismo
O relatório também destaca o papel estratégico do Espírito Santo na cadeia cafeeira nacional.
Embora Minas Gerais concentre cerca de metade da produção brasileira e São Paulo seja o principal corredor de exportação, o diferencial capixaba está na integração da cadeia produtiva.
O estado reúne produção agrícola, processamento industrial e exportação, consolidando-se como o maior produtor nacional de café conilon, principal polo brasileiro da indústria de café solúvel e um dos maiores exportadores do país.
“O Espírito Santo pode não ser o maior produtor ou o maior exportador de café do Brasil, mas reúne produção, indústria e logística em um mesmo território. Essa integração faz do estado um dos polos mais completos da cafeicultura brasileira”, destaca André Bortolini, analista econômico da Apex Partners.
Nos últimos anos, o Espírito Santo praticamente dobrou sua produtividade por hectare sem ampliar significativamente a área cultivada. Segundo o estudo, o resultado é fruto de investimentos em irrigação, manejo nutricional, renovação das lavouras e adoção de variedades clonais mais produtivas.
Outro destaque é o perfil da produção: aproximadamente 73% dos cafeicultores capixabas pertencem à agricultura familiar.

Nos últimos anos, o Espírito Santo praticamente dobrou sua produtividade por hectare de café. Crédito: Apex Partners
Mais indústria e mais valor agregado
O estudo aponta que o Espírito Santo também vem ampliando sua participação nas etapas de maior valor agregado da cadeia do café.

O avanço do consumo de café na Ásia e os investimentos na indústria capixaba reforçam o protagonismo do Espírito Santo no mercado cafeeiro, aponta estudo da Apex Partners.
Enquanto muitos países produtores exportam principalmente o grão verde, mercados como Alemanha, Itália e Suíça concentram boa parte do processamento industrial, transformando o café em produtos como torrado, solúvel e extratos.
Nesse cenário, o estado vem fortalecendo sua indústria de café solúvel. Em 2025, as exportações capixabas do segmento ultrapassaram US$ 216 milhões, crescimento de 28% em relação ao ano anterior.
Esse movimento é acompanhado por um novo ciclo de investimentos. Linhares consolidou-se como um importante polo logístico e agroindustrial, concentrando cerca de R$ 4 bilhões em investimentos previstos até 2028.
Entre os empreendimentos estão uma fábrica de café solúvel em Linhares, com investimento de R$ 1 bilhão e geração estimada de 300 empregos, e uma fábrica de café descafeinado em Sooretama, com investimento de R$ 160 milhões e capacidade para processar aproximadamente 400 mil sacas por ano.
Segundo a Apex Partners, essa expansão está diretamente conectada ao crescimento do mercado asiático, já que o café conilon produzido no Espírito Santo é a principal matéria-prima utilizada na fabricação de café solúvel, produto que lidera o consumo em mercados emergentes como a China.
Inteligência para o agronegócio
Produzido pelo time de Research da Apex Partners, o Panorama do Café reúne análises, indicadores e perspectivas sobre um dos setores mais relevantes da economia brasileira.
O objetivo é oferecer inteligência de mercado para empresários, investidores e agentes do agronegócio, contribuindo para ampliar a compreensão sobre os movimentos que moldam o futuro da cafeicultura no Brasil e no mundo.
Fonte: Folha Vitória