El Niño já pressiona cacau e café no mercado global e impulsiona grãos na Bolsa de Chicago; Brasil segue bem posicionado

Última atualização: 02/08/2026 às 11:51

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  • Cacau teve a maior alta entre as commodities acompanhadas, com avanço médio de 27,4% em julho, enquanto o café subiu 24%.
  • Em Chicago, trigo, milho e soja avançaram 9,4%, 9% e 5,4%, respectivamente, em meio a calor nos EUA e riscos no Mar Negro.
  • Brasil colhe safra recorde de grãos e deve exportar mais café, soja e algodão.

Cacau

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O El Niño ganhou força ao longo de julho e voltou ao centro das atenções do mercado de commodities. Os efeitos do fenômeno já aparecem nas estimativas para cacau e café e também ajudam a compor o cenário de alta dos grãos negociados em Chicago.

O fenômeno climático se intensificou rapidamente desde o início do mês, justamente em um período em que lavouras importantes atravessam fases sensíveis de desenvolvimento e colheita.

Julho também foi marcado pela escalada da guerra entre Rússia e Ucrânia, por temperaturas elevadas nos Estados Unidos e pelas tensões entre Washington e Teerã, que impulsionaram o petróleo e acabaram contaminando outros mercados agrícolas.

Nesse ambiente, o cacau foi a commodity que mais chamou atenção. Segundo levantamento do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, com base nos fechamentos diários do contrato futuro mais negociado em Nova York, o preço médio de julho ficou em US$ 5.498,91 por tonelada, alta de 27,4% sobre junho.

Cacau sente efeitos do clima na África

A disparada ocorre em meio à expectativa de uma oferta menor nos dois maiores produtores mundiais.

Em Gana, a Ghana Cocoa Board, órgão que regula o setor, confirmou queda de pelo menos 16% na produção da temporada 2026/27, que começa em setembro.

A redução é atribuída a uma combinação de fatores: excesso de chuvas entre maio e junho, possível influência do El Niño, o ciclo natural das lavouras, o avanço da doença do broto inchado e a perda de áreas produtivas para a mineração ilegal de ouro, conhecida no país como galamsey.

Na Costa do Marfim, maior produtor mundial, a StoneX projeta queda de 11% na safra, para 1,77 milhão de toneladas.

A consultoria também reduziu de 422 mil para apenas 25 mil toneladas a estimativa de superávit global para a temporada.

Café sobe, mas preocupação é com qualidade

O café seguiu trajetória semelhante no mercado futuro.

Em Nova York, o preço médio de julho ficou em US$ 3,2555 por libra-peso, avanço de 24% sobre junho, segundo o levantamento do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

No Brasil, porém, o impacto aparece principalmente na qualidade dos grãos.

Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), ligado à Esalq/USP, cerca de 30% da safra de arábica ainda estava nas lavouras ou no chão no fim de julho. As chuvas durante esse período podem prejudicar o padrão da bebida.

Ao mesmo tempo, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma safra recorde de 66,2 milhões de sacas em 2026/27.

O quadro, portanto, é diferente do observado no cacau: a oferta brasileira continua elevada, mas o mercado passou a prestar mais atenção à qualidade de parte da produção.

Calor e guerra mexem com Chicago

Nos grãos, o movimento foi mais amplo. O trigo liderou as altas em Chicago, com preço médio de US$ 6,5051 por bushel em julho, avanço de 9,4% sobre junho.

Além das condições climáticas, o mercado foi influenciado pelas incertezas em torno da oferta americana. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetou uma safra de 41,81 milhões de toneladas.

Ao longo do mês, Rússia e Ucrânia intensificaram ataques contra estruturas portuárias e embarcações, elevando o risco sobre uma das principais rotas globais de escoamento de trigo e outros grãos.

O milho também ganhou força, em meio ao aumento das temperaturas nos Estados Unidos durante uma etapa importante para o desenvolvimento das lavouras.

O preço médio ficou em US$ 4,6465 por bushel, alta de 9%.

A soja avançou 5,4%, para uma média de US$ 12,0026 por bushel.

Nos dois mercados, o clima americano ganhou peso nas decisões dos investidores, principalmente diante do risco de perda de produtividade caso o calor se prolongue.

Petróleo também entra na conta

O clima e a guerra no Leste Europeu não foram os únicos fatores a movimentar as commodities.

O petróleo Brent acumulou alta superior a 20% em julho, com o aumento das tensões entre Estados Unidos e Irã em torno do Estreito de Ormuz.

O movimento teve efeitos indiretos sobre açúcar e algodão.

No açúcar, petróleo mais caro tende a aumentar a atratividade do etanol, o que pode levar as usinas a destinar uma parcela maior da cana para o biocombustível.

A Green Pool elevou sua projeção de déficit global de açúcar em 2026/27 para 4,3 milhões de toneladas.

Em Nova York, o preço médio ficou em 14,80 centavos de dólar por libra-peso, alta de 4,3% em julho.

Já no algodão, o petróleo mais caro tende a elevar o custo das fibras sintéticas, concorrentes diretas da fibra natural na indústria têxtil.

O preço médio do algodão avançou 2,7%, para 79,90 centavos de dólar por libra-peso.

Suco de laranja vai na contramão

O suco de laranja concentrado e congelado foi uma das poucas exceções no mês.

O contrato negociado em Nova York teve preço médio de US$ 1,4857 por libra-peso em julho, queda de 6,2% sobre junho.

Brasil está bem posicionado

O Brasil chega ao momento de alta internacional em posição favorável na maior parte das commodities. No 10º Levantamento da Safra de Grãos, divulgado em julho, a Conab projetou produção recorde de 360,1 milhões de toneladas para 2025/26, alta de 2,2% sobre o ciclo anterior, puxada por soja e milho. A estatal estima que as exportações de soja possam alcançar 116,3 milhões de toneladas.

Já na cana-de-açúcar, o levantamento mais recente da Conab, de abril, projeta produção de 709,1 milhões de toneladas para 2026/27, alta de 5,3%, com recorde histórico de etanol, de 40,69 bilhões de litros.

No algodão, a Conab projeta exportações 6,6% maiores em 2026, para 3,2 milhões de toneladas, impulsionadas pela retomada das compras da China.

Já no café, o Cecafé registrou receita cambial de US$ 14,595 bilhões na safra 2025/26, a segunda maior da série histórica, mesmo com queda de 15,7% no volume exportado, reflexo dos preços elevados entre setembro de 2025 e janeiro de 2026.

Fonte: CNBC

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