Muito além da xícara: documentário mostra por que o futuro do café depende da saúde do solo

Última atualização: 04/08/2026 às 12:15

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𝙍𝙚𝙞𝙣𝙖𝙡𝙙𝙤 𝘾𝙖𝙣𝙩𝙤 – Com narração de Demi Moore e Woody Harrelson, o filme ‘Groundswell’ lança luz sobre a agricultura regenerativa e evidencia como a preservação da terra é decisiva para enfrentar a crise climática e garantir a produção do café.

Por Reinaldo Canto | Envolverde

Há poucos hábitos tão universais quanto tomar uma boa xícara de café. No Brasil, ele faz parte da rotina, da cultura, das conversas e da economia. No mundo, movimenta milhões de produtores e consumidores. Mas por trás de cada grão existe um patrimônio muitas vezes invisível: o solo. E é justamente ele que está no centro de uma discussão cada vez mais urgente sobre as mudanças climáticas, a segurança alimentar e o futuro da agricultura.

É por isso que a chegada do documentário Groundswell ao Amazon Prime Video merece atenção muito além do universo dos apaixonados por café. O filme tem potencial para alcançar um público amplo e ajudar a traduzir, de forma acessível, um tema que costuma permanecer restrito aos especialistas: a necessidade de regenerar os solos agrícolas para garantir a produção de alimentos nas próximas décadas.

Da tela para o campo: a urgência do solo vivo

Narrado por Demi Moore e Woody Harrelson, o longa mostra que um solo saudável não é apenas um detalhe da produção rural. Ele é um dos maiores reservatórios de vida do planeta, capaz de armazenar carbono, conservar água, proteger a biodiversidade e tornar as lavouras mais resistentes aos eventos climáticos extremos que se tornam cada vez mais frequentes.

A história do cafeicultor colombiano Rubén Agudelo, parceiro da Nespresso há duas décadas, ilustra como práticas regenerativas podem transformar não apenas a produtividade das propriedades, mas também a qualidade de vida das comunidades rurais.

Essa discussão chega em um momento particularmente importante para o Brasil. A seca que afetou a safra de café de 2025 evidenciou a vulnerabilidade das lavouras diante das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, experiências conduzidas em propriedades brasileiras indicam um caminho possível para enfrentar esse desafio.

Resiliência comprovada e rentabilidade no campo

Dados apresentados pela Nespresso mostram que fazendas que adotaram práticas regenerativas conseguiram produzir, em média, 20% mais café durante o período de seca do que propriedades com manejo convencional. Além disso, registraram emissões de carbono cerca de 25% menores.

Os números ajudam a reforçar uma percepção que ganha força entre pesquisadores e produtores: investir na saúde do solo não é apenas uma medida ambiental, mas também uma estratégia econômica capaz de aumentar a resiliência das lavouras.

Entre as principais práticas adotadas estão:

  • Uso intensivo de fertilizantes orgânicos e compostagem;
  • Manejo de plantas de cobertura para proteção do solo;
  • Adição de controle biológico contra pragas;
  • Redução gradual no uso de herbicidas e pesticidas sintéticos;
  • Estímulo à diversidade vegetal e restauração da microbiologia da terra.

São intervenções que favorecem a retenção de água, reduzem a erosão e fortalecem naturalmente os cafeeiros.

Exemplos de transformação na prática brasileira

Diversos casos no país comprovam que essa transição já é uma realidade:

  • Cerrado Mineiro (Fazenda Luciana): Registrou aumento consistente de produtividade após incorporar o manejo biológico em duas safras consecutivas.
  • Alta Mogiana (Fazenda Bela Época): Integra o cultivo do café a espécies arbóreas como banana, cedro, mogno e eucalipto, estruturando sistemas agroflorestais que ampliam a biodiversidade local.
  • Cerrado Mineiro (Chácara Colônia Agrícola): Desenvolveu corredores ecológicos que reduzem naturalmente a incidência de pragas e mantêm elevados índices de produtividade.

Daniel Motyl, Gerente de Café Verde da Nespresso Brasil, pontua que a realidade era bastante distinta quando iniciou sua trajetória na empresa.

 Poucos produtores adotavam práticas regenerativas. Esses eram os visionários. Hoje, a maioria dos produtores já pratica agricultura regenerativa, porque viram os resultados com benefícios reais

Daniel Motyl, Gerente de Café Verde da Nespresso Brasil

Investimentos no Cerrado e restauração de paisagens

Como parte desse compromisso, a Nespresso anunciou um novo ciclo de aportes no Brasil. Entre as iniciativas, destaca-se a criação do Prêmio Regenerativo Avançado, que destinará aproximadamente R$ 6 milhões para reconhecer financeiramente os cafeicultores com melhores indicadores ambientais, além da ampliação da parceria com a organização internacional PUR, dedicada à restauração de paisagens.

O projeto prevê o plantio inicial de cerca de 98 mil árvores nativas em regiões cafeeiras do Cerrado Mineiro. As mudas serão aplicadas em sistemas de quebra-vento, arborização consorciada entre os cafeeiros e recuperação de áreas degradadas, com o objetivo de reforçar a biodiversidade, melhorar o fluxo hídrico e aumentar a proteção contra intempéries climáticas.

Mais do que apresentar os números de uma empresa, essas ações demonstram que a regeneração dos solos deixou de ser um conceito abstrato para se consolidar como uma exigência prática diante das transformações do clima.

O futuro da bebida e da preservação ambiental

O café é um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação. A bebida que acompanha milhões de pessoas logo ao amanhecer depende diretamente da qualidade da terra onde é gerada. Sem solo saudável, não há produtividade estável, renda garantida ao produtor, conservação de nascentes ou segurança para uma cadeia que movimenta bilhões de reais anualmente.

 Entendemos que a qualidade do café começa na origem, estando diretamente ligada à preservação dos recursos naturais e ao fortalecimento das comunidades produtoras

Daniel Motyl

Diante disso, o maior mérito de Groundswell é democratizar o debate. Quanto mais pessoas compreenderem as conexões entre solo, clima, biodiversidade e segurança alimentar, mais rápida será a adesão a uma mudança que beneficia toda a sociedade — do agricultor no campo ao consumidor na xícara.

No fim das contas, cuidar do solo é cuidar do café. E cuidar do café é preservar uma tradição, uma economia e um patrimônio vivo que moldam a identidade do Brasil e o cotidiano do planeta.

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