Vitória ainda não percebeu que é a capital do café

Última atualização: 08/08/2026 às 22:14

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Curiosamente, dentro da própria capital, o café ainda parece andar um pouco disfarçado

Por Nicolas Nunes | Tribuna Online

Foto: Reprodução Jornal A Tribuna

Vitória é cercada pelo café. Ele chega das montanhas, atravessa o interior, movimenta cooperativas, corretoras, exportadores, armazéns, transportadoras e escritórios. Passa pelo porto, circula pela economia e ajuda a sustentar milhares de famílias capixabas.

Curiosamente, dentro da própria capital, ainda parece andar um pouco disfarçado. O Espírito Santo é o maior produtor brasileiro de café conilon, responsável por aproximadamente 70% da produção nacional. A cultura ocupa 49 mil propriedades em 68 municípios e representa 38% do PIB agrícola capixaba.

No arábica, somos o terceiro maior produtor do País, com lavouras espalhadas pelas regiões montanhosas. São números suficientes para o café entrar pela porta da frente.

Em Vitória, porém, ele ainda aparece mais como atividade econômica do que como identidade urbana. Isso não significa que a cidade esteja parada. Pelo contrário.

Nos últimos anos, surgiram cafeterias especializadas, torrefações, marcas locais, baristas, cursos e consumidores mais interessados em origem, método e qualidade. Já é possível encontrar na Grande Vitória boas casas servindo cafés capixabas, algumas delas com mais de uma década de trabalho nessa formação de público.

A cidade também recebe encontros empresariais, rodadas de negócios e eventos ligados ao setor. Em agosto, o Vitória Coffee Summit reunirá, no Cais das Artes, lideranças brasileiras e internacionais, incluindo representantes de países centrais para o mercado, como Colômbia e Vietnã.

É o tipo de evento que confirma algo que talvez ainda não tenhamos nos apropriado suficientemente como narrativa: Vitória já participa das grandes conversas mundiais sobre café. A questão é o que acontece quando o congresso termina. Uma capital do café precisa ser reconhecida também por quem chega sem crachá.

O turista deveria encontrar essa história nos hotéis, restaurantes, cafeterias, mercados, museus, lojas e roteiros da cidade. Poderia conhecer diferentes regiões produtoras, provar arábicas das montanhas e conilons especiais do norte capixaba, visitar torrefações e levar para casa uma embalagem que explicasse de onde veio aquele sabor.

Hoje, alguém pode desembarcar em Vitória, passar alguns dias por aqui e ir embora sem descobrir que está na capital de um dos maiores estados cafeeiros do mundo. É quase como visitar a Bahia e só perceber no aeroporto que existia acarajé.

Falta conectar o que já existe. Um calendário permanente de eventos, uma rota de cafeterias, experiências gastronômicas, presença mais forte nos pontos turísticos, sinalização nos espaços de chegada e uma estratégia conjunta entre poder público, empresas e setor produtivo.

Vitória tem vantagens que outras cidades precisariam inventar: proximidade com regiões produtoras, tradição comercial, estrutura portuária, marcas, profissionais qualificados e um estado que produz café em diferentes altitudes, climas e perfis sensoriais. O café já movimenta o Espírito Santo. Pode também levar Vitória a contar melhor quem somos.

Talvez a capital não precise criar uma nova vocação. Precise apenas servir, em uma xícara mais visível, aquela que já estava pronta há bastante tempo.

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