Última atualização: 10/08/2026 às 12:03
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Café Nhaí expressa representatividade e já registrou crescimento de mais de 400% nas vendas em um ano
Por Cleyton Vilarino — São Paulo | Globo Rural

Filipe e Tiago exibem café Nhaí, marca de café LGBT criada após os dois irmãos voltarem para o campo — Foto: Divulgação
Quando circula por sua cidade, Três Pontas, no sul de Minas Gerais, o advogado Filipe Campos Mendonça é frequentemente cumprimentado com um “Nhaí”, saudação típica da comunidade LGBTQIAP+. A expressão, vinda de fazendeiros heterossexuais, poderia soar como uma provocação, mas é um reconhecimento. Nhaí também é o nome escolhido por ele e o irmão, Tiago Campos Mendonça, para a primeira marca de café da família que há três gerações planta o fruto na região.
“No início, as pessoas criticavam. Eu acho que o meu pai não gostava muito também e nós pensamos em desistir em alguns momentos. No entanto, a partir dos retornos positivos que recebemos durante as vendas, decidimos continuar”, relata Tiago, diretor financeiro da marca.

Nome “Nhaí” faz referência a gíria gay usada como saudação ou cumprimento — Foto: Divulgação
A ideia de criar um café LGBT partiu de Filipe, hoje diretor presidente da Nhaí, depois que decidiu abandonar o seu trabalho no mercado financeiro e voltar para a casa dos pais em busca de descanso em 2023. Entre um repouso e outro, ele foi aprendendo a mexer com o maquinário da fazenda e ajudar no manejo do cafezal. “Começou como um descanso e acabou virando uma profissão”, brinca o cafeicultor.
O retorno às origens, contudo, só foi possível graças a um passo importante dado dois anos antes, quando os dois irmãos decidiram assumir a própria sexualidade para a família. “Tivemos muito medo, inclusive de sermos expulsos de casa, mas quando vimos que teve essa aceitação, abriram-se os horizontes para estarmos mais perto e participarmos do negócio da família”, reconhece Tiago.
O cafeicultor Gláucio Garcia Mendonça, pai de Filipe e Tiago, reconhece que aceitar a sexualidade dos dois não foi fácil. “Da primeira vez você leva um baque, né? Mas minha esposa tem uma cabeça muito boa e com o tempo fui amadurecendo a ideia”, afirma. Segundo ele, o envolvimento dos dois com a propriedade da família foi uma surpresa.
“No começo, eu achei que eles não gostavam de mexer com a fazenda”, relata o agricultor. Hoje, ele vende cerca de 800 quilos de café a cada 15 dias para os filhos torrarem e venderem com o rótulo Nhaí, um passo que ele mesmo nunca deu por falta de mão de obra.

Glaucio e os filhos Filipe e Tiago: aceitação da família foi crucial para sucessão no campo — Foto: Arquivo pessoal
“Eu já tinha esse plano, mas aí como na fazenda era tudo por minha conta, eu me questionava se compensava fazer isso sozinho”, conta Gláucio. Com o apoio dos filhos, hoje a família toda está envolvida com a produção de café. “A minha esposa mexe com o financeiro, com venda de café. O Felipe mexe com essa parte da torra e eu toco as lavouras”, revela.
Com a família unida e um café de qualidade, acima de 84 pontos, o sucesso tem sido exponencial. Em apenas um ano, o Nhaí teve um aumento de mais de 400% nas vendas após Filipe e Tiago firmarem contrato com uma grande rede de varejo com 45 lojas em São Paulo, além das vendas em Minas Gerais e cafeterias na capital, Belo Horizonte.
“A questão da representatividade foi o que mais deu forças para nos afirmarmos como produtores gays num ambiente tão difícil como o agro e para podermos trazer mais pessoas da nossa comunidade para essa luta”, comemora Tiago.