De produção feminina aos pequenos produtores, Alagoas amplia cultivo de café

Última atualização: 17/08/2026 às 11:44

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Embrapa mapeia áreas com potencial para estruturar a cafeicultura no estado

Por Vanessa Siqueira | Movimento Econômico

Em Viçosa, Zona da Mata de Alagoas, trabalho comandado por mulheres como a a agricultora Alice Barbosa produz café do tipo arábica de forma artesanal e pretende ampliar presença no mercado. Foto: Reprodução

O cultivo do café em Alagoas tem avançado nos últimos anos com plantações em diversos municípios. Apesar de ainda não ser considerado uma cadeia produtiva, produtores têm apostado no café e já iniciam a comercialização de grãos produzidos no estado.

Uma das produções em estágio mais avançado fica em União dos Palmares onde 12 famílias cultivam cerca de 14 mil pés do tipo Arábica. André Souza, um dos principais produtores, possui sete mil pés, distribuídos em 1,5 mil hectares e colheu em maio o equivalente a 10 sacas de café.

Ele contou ao Movimento Econômico que essa foi sua primeira colheita e o foco agora está em produzir mudas com parte do café colhido para ampliar o número de cafeicultores no estado.  

“Estou vendendo o café para quem nos procura, temos uma marca, o Café Alagoano, mas meu foco agora é fazer mudas para vender para outros produtores interessados. Hoje já são cerca de 30 agricultores que adquiriram mudas e que moram em diversas partes do estado”, disse.

Entre os planos de André está ampliar a área plantada para cinco hectares e criar uma cooperativa de produtores de café no estado. Suas mudas já atendem produtores em União dos PalmaresFlexeirasSantana do MundaúMurici Jundiá. “Contabilizando o que já vendemos e o que tem previsto para vender, são 80 mil mudas de café. Estamos começando, mas queremos crescer”, disse.

Mudas produzidas em União dos Palmares por produtor André Souza abastecem cidades em diversas partes de Alagoas. Foto: Incra/Alagoas

O café plantado em seu lote teve como técnica utilizada a de terraceamento, com a plantação em degraus, que se ajusta à declividade do terreno, facilita o trabalho do agricultor e diminui a erosão do solo. O lote da família está situado numa localidade com 400 metros de altitude.

Além do incentivo ao cultivo do grão, André Souza conta que iniciou a construção de um galpão para abrigar uma agroindústria. Ele também adquiriu um secador de grãos e uma máquina para descascar o café.

Em Viçosa, família iniciou plantação de café artesanal e pretende lançar em breve marca no mercado local. Foto: Arquivo pessoal

Mulheres unem tradição familiar em marca de café de Viçosa

Na zona rural de Viçosa, município da Zona da Mata alagoana, o que era uma história familiar virou negócio. A agricultora Alice Barbosa iniciou em 2022 o plantio de pés de café, inspirada pela filha Isabela, professora de café e sommelier e pretende lançar a marca Café Dalice.

Isabela Barbosa explicou ao Movimento Econômico que incentivou a mãe a produzir café como forma de lidar com perda do pai e encontrar uma atividade que ocupasse a mãe num período difícil para a família. A produção ainda é pequena, conta com 320 pés e é feita de forma artesanal por sua mãe Alice.

“A ideia começou quando eu fiz um curso de barista. Eu estava enlutada, com a partida recente do meu pai e que seria também uma boa alternativa para minha mãe lidar com o luto. Fiz dois cursos de barista e já era professora de gastronomia e com a proximidade por conta da análise sensorial do café e do vinho, o que antes era o conhecimento aplicado em sala de aula, conversei com minha mãe para unirmos nossos conhecimentos e surgiu o Café Dalice”, contou.

Isabela contribui no processo com conhecimento técnico e viabiliza cursos para a mãe se aprofundar nas técnicas de manejo e produção cafeeira. A ideia é expandir a produção e ampliar a capacidade de manejo, já que as etapas vêm sendo realizadas por dona Alice. “O sistema de irrigação, tudo é manual. Depois colher, selecionar grãos, lavar, colocar na secagem. O nome da marca tinha que ser o dela. No começo ela estranhou, mas depois gostou da ideia”, afirmou.

Embrapa mapeia regiões e destaca potencial produtivo de café em Alagoas

Com uma produção espalhada em diversos municípios, mas que ainda não compõe uma cadeia produtiva, com acompanhamento técnico e promoção de ações específicas, produtores tem conseguido apoio de instituições como a Embrapa para seguir plantando e produzindo cafés de forma artesanal.

Cooperativa Pindorama ainda não iniciou o projeto que prevê o plantio de café do tipo Conilon em 10 hectares entre Penedo e Coruripe por questões climáticas. O projeto segue em fase de preparação, segundo apurou a reportagem.

Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Alagoas (Senar) informou que ainda não possui técnicos atuando para dar suporte aos produtores de café justamente pelo fato de a cultura não ser considerada uma cadeia produtiva, mas que vem acompanhando a evolução para poder iniciar o acompanhamento técnico.

Já a Embrapa Café vem realizando nos últimos anos visitas a produtores locais e mapeou as regiões com potencial para produção de café no estado. A chefe de Inovação e Negócios da Embrapa Café, Renata Silva, disse ao Movimento Econômico que o trabalho realizado em campo identificou áreas com potencial para cultivo de cafeeiros do tipo Arábica Canephora – grupo que inclui variedades como conilon robusta, a depender da região e da altitude local.

“O que a Embrapa tem feito, na verdade, é buscar organizar uma governança territorial em Alagoas, para que as instituições que atuam de alguma maneira com a agricultura na região se organizem no sentido de ter um plano estratégico para a cafeicultura local, porque a partir do momento que você tem potencial, é necessário organizar os atores locais para que tenham acesso a mudas, a financiamentos e capacitação técnica”, disse.

Pelo fato de ainda não existir técnicos especializados em cafeicultura, ela destaca a necessidade de profissionais que saibam lidar com a cultura, indicar as mudas certas para cada região, avaliar o potencial e prestar assistência aos produtores.

“Tem todo um processo que precisa acontecer para que a cafeicultura, para que ela possa ser de fato uma atividade que possa gerar renda e qualidade de vida para a região. Não podemos recomendar sem testar, isso é um risco muito alto para uma cultura perene. A Embrapa entra no sentido de testar materiais genéticos para a região, com testes que duram de quatro seis anos e depois disso dizer qual variedade se adapta melhor. Hoje temos materiais muito mais resistentes a pragasdoenças questões climáticas, então estamos atuando nessa frente em Alagoas”, explicou.

Bahia é hoje o maior produtor regional e um dos maiores do país; Embrapa acompanha evolução da atividade cafeeira no estado e promove ações em outros estados do Nordeste. Foto: Sebrae – BA

Nordeste vê retomada do café

Renata também destacou o crescimento do cultivo de café em todo o Nordeste, com destaque para a Bahia, hoje maior produtor regional. A cultura, que já foi bastante presente no passado, hoje tem sido retomada e é responsável por movimentar a economia em diversas localidades.

“Em termos de Nordeste, nós temos a Bahia, que é o maior produtor de café do Nordeste, um dos maiores do Brasil, e a gente tem diversas regiões na Bahia produtoras. Nos demais estados, a Universidade Federal da Paraíba vem desenvolvendo pesquisas de teste de variedades de café arábica há quase dez anos, com recomendações, variedades mais modernas para a região do brejo paraibano”, disse.

Desde 2025 a Embrapa realiza em parceria com a UFPB o evento Conexão Nordeste, para fomentar entre interessados informações sobre o cultivo do café na região. O trabalho incentivou que alunos da universidade atendessem produtores em outros estados, como AlagoasPernambuco Rio Grande do Norte, o que tem contribuído para a retomada da produção cafeeira regional.

“A Embrapa identificou essas demandas e tem tentado se posicionar no sentido de organizar um plano de gestão da cafeicultura na região para que as pessoas de fato pudessem retomar essa cafeicultura com materiais genéticos recomendados e adaptados, pesquisa, capacitação e eventos demonstrando a relevância da cafeicultura com todos os cuidados necessários para que ela seja eficiente, possa gerar renda e promover o desenvolvimento da região”, finalizou.

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