O preço do café pode subir? El Niño ameaça safra recorde no Brasil

Última atualização: 18/08/2026 às 16:52

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Fenômeno ameaça a florada no Sudeste em meio a estoques globais baixos e pode pressionar as cotações em 2026/27

Colheita de café na Cooxupé (MG): Em 2025, as cooperativas agropecuárias do estado movimentaram R$ 66,8 bilhões, crescimento de 26,7% em relação ao ano anterior. (Cooxupé/Divulgação)

Por César H. S. Rezende | Exame

O avanço do El Niño coloca a safra brasileira de café 2026/27 entre os pontos de atenção do mercado de commodities. A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é de que o Brasil renove o recorde e alcance 66,7 milhões de sacas, alta de 18% em relação à temporada anterior, mas o fenômeno climático pode mudar essa perspectiva e aumentar a pressão sobre os preços.

Segundo análise da Cogo Inteligência em Agronegócio, o El Niño pode trazer maior irregularidade climática às regiões produtoras justamente em uma fase decisiva para a formação da safra.

As projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontam mais de 97% de probabilidade de o El Niño persistir até o início da primavera de 2027. Entre outubro e dezembro de 2026, a chance de o fenômeno atingir intensidade muito forte chega a 81%.

A perspectiva tem um peso ainda maior no trimestre seguinte. Entre outubro e dezembro, a NOAA calcula em 95% a chance de um El Niño muito forte. Há ainda 69% de probabilidade de o evento estar entre os mais intensos registrados desde 1950, início da série histórica utilizada pela agência americana.

Para o café brasileiro, o principal alerta está no Sudeste, onde o período crítico coincide com a florada das lavouras. Para Carlos Cogo, CEO da consultoria, a região apresenta risco climático classificado como alto. O cenário projetado envolve seca moderada e ameaça à floração cafeeira, especialmente entre setembro e novembro de 2026.

Na safra 2026/27, Minas Gerais, principal produtor do país, deve colher 33,4 milhões de sacas de café. No Espírito Santo, segundo maior produtor, a produção total é estimada em 18 milhões de sacas, segundo a Conab.

A floração é uma das etapas mais sensíveis do ciclo produtivo do café. A ocorrência de chuvas pode estimular a abertura das flores, mas a falta de umidade posteriormente, assim como temperaturas elevadas, pode prejudicar o pegamento dos frutos e comprometer parte do potencial produtivo.

A análise chama atenção também para a possibilidade de antecipação das chuvas e de novas floradas. O problema, nesse caso, não está apenas no volume de precipitação, mas em sua distribuição irregular e múltiplas floradas pode elevar o risco de perda de produtividade e de qualidade do café.

Segundo Cogo, o manejo pode fazer diferença na capacidade das lavouras de enfrentar o cenário. “Solos bem estruturados, cobertura vegetal, maior retenção de água e técnicas adequadas de manejo aparecem como fatores capazes de reduzir o impacto do estresse climático”, diz.

Preço do café

O risco climático ganha relevância adicional porque surge em um momento de estoques globais mais apertados. Segundo Cogo, a relação entre estoques finais e demanda mundial de café recuou significativamente nas últimas décadas e chega a 2026/27 próxima dos menores níveis da série histórica analisada.

O quadro reduz a capacidade do mercado de absorver eventuais problemas de produção nos principais países exportadores. O Brasil ocupa posição central nessa equação, uma vez que responde por 38% da produção mundial de café, enquanto o Sudeste Asiático concentra outros 26%.

Com estoques menores, qualquer perda relevante na produção brasileira tende a ter impacto proporcionalmente maior sobre o equilíbrio entre oferta e demanda — e, consequentemente, sobre os preços.

As cotações internacionais já refletem um mercado mais apertado. Segundo o levantamento, os contratos futuros de café negociados na Bolsa de Nova York (ICE US) avançaram fortemente a partir de 2024 e permaneceram em níveis historicamente elevados ao longo de 2025 e 2026.

No período, Brasil e Vietnã, os dois maiores produtores globais de café, registraram perdas de produção provocadas por problemas climáticos. Nesse contexto, os preços do café chegaram a acumular alta de 240%.

Em 2025, os preços do café estiveram entre os principais vilões da inflação. O café moído acumulou alta de 35,68%, enquanto o solúvel subiu 25,5%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para Cogo, porém, ainda é cedo para afirmar que haverá quebra de safra. O impacto efetivo do El Niño dependerá de sua intensidade e, principalmente, da distribuição das chuvas e das temperaturas nos próximos meses.

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