Café regenerativo ganha mais adeptos e novos investimentos

Última atualização: 20/08/2026 às 11:40

Loading

Diante de desafio climático, fazendas com práticas sustentáveis têm produção 20% superior e recebem incentivos

Projeto Corredores Arborizados começou na Fazenda Barinas, em Araxá, no Cerrado Mineiro, que possui áreas afetadas por geadas severas | Foto: Lucas Hallel/Divulgação Expocacer

Por Luciana Rezende | O Tempo

Os bons resultados colhidos no último ano e a busca por uma agricultura resiliente às transformações climáticas têm levado produtores de Minas Gerais a ampliar iniciativas e investimentos com foco em cafeicultura regenerativa, principalmente com a adesão aos corredores arborizados. Mais do que reduzir a emissão de gases de efeito estufa, a prática sustentável tornou-se estratégia de sobrevivência à crise ambiental, além de oferecer benefícios financeiros aos produtores.

Diferentemente das práticas convencionais, que costumam usar fertilizantes químicos e deixar o solo exposto, o modelo regenerativo envolve uso de plantas de cobertura entre as fileiras de café para proteger o solo de erosão e calor, aplicação de adubos orgânicos, controle biológico de pragas, entre outras ações sustentáveis. Monitoramento realizado pela Nespresso Brasil, com mais de 240 fazendas entre 2024 e 2025, período em que a seca no país derrubou a produtividade média das propriedades de 40 para 32 sacas por hectare, revela que o café regenerativo resistiu melhor ao clima adverso.

O grupo de cafeicultores regenerativos colheu, em média, 36 sacas/ha, enquanto o restante apurou 30 sacas/ha. Além de mais produtivas, as plantações emitiram 25% menos carbono (1,6 kg de CO2 por kg de café, contra 2,1 kg nas lavouras tradicionais), tiveram 42% mais áreas com variedades resistentes e reduziram o uso de pesticida em 10%.

Com ganhos validados, a Nespresso – que tem, no Brasil, seu principal fornecedor de café verde – anunciou mais R$ 6 milhões em incentivo direto a práticas regenerativas no país. O valor se soma ao prêmio-base destinado aos cafeicultores e aos investimentos anuais para suporte de cerca de 500 fazendas parceiras da companhia. 

Estímulo

Ao todo, o montante chegaria a mais de R$70 milhões por ano injetados na cadeia produtiva brasileira do café. “Como o mercado ainda não paga a mais pelo café regenerativo, a Nespresso Brasil assumiu o papel de criar o incentivo financeiro e a curadoria técnica que faltavam (…) para que o produtor transforme sua forma de cultivar”, afirma o gerente de Café Verde da empresa, Daniel Motyl. Em 2025, 95% do volume de café brasileiros comprado pela Nespresso teve origem em fazendas que seguiam práticas regenerativas. Em 2022, eram 84%.

A Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado Mineiro (Expocacer), por meio do projeto Corredores Arborizados, também busca atrair novos adeptos das práticas regenerativas. A proposta é integrar árvores ao sistema produtivo de forma estratégica, criando corredores que favoreçam a formação de um microclima mais equilibrado, melhorem as condições do solo, aumentem a biodiversidade e contribuam para a sustentabilidade da produção.

Cada fazenda recebe um projeto personalizado, elaborado pela cooperativa e parceiros, de acordo com suas características. “Mais do que gerar benefícios agronômicos, o projeto está inserido em um programa de geração de créditos de carbono, o que cria nova oportunidade de renda aos produtores participantes”, explica a gerente Técnica e de Sustentabilidade da Expocacer, Farlla Gomes.

Ela conta que o projeto piloto ocorreu na Fazenda Barinas, em Araxá, que integra o Cerrado Mineiro. A propriedade, que pertence ao cooperado Marcio Borges, possuía áreas historicamente afetadas por geadas severas. “A implantação começou em 2025, e os primeiros resultados já demonstram avanços na formação do microclima mais favorável, com recuperação de áreas vulneráveis e fortalecimento da resiliência da lavoura”, destaca. A expectativa da Expocacer é ampliar gradativamente a ação para outros cooperados, formando uma rede de fazendas regenerativas capazes de produzir café com mais resiliência climática e qualidade.

Nova fonte de renda para o produtor

No cenário de expansão da agricultura regenerativa, a Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), no Sul de Minas, alcançou, no primeiro semestre, um marco no agronegócio brasileiro: produção e comercialização de unidades de carbono geradas na cadeia de valor, a partir da arborização de lavouras cafeeiras. A iniciativa integra o projeto Cafeicultura Regenerativa da cooperativa e, segundo a gerente de ESG, Natalia Fernandes Carr, coloca o país na vanguarda de um modelo produtivo que alia sustentabilidade, inovação e geração de valor ao produtor.

O projeto-piloto reuniu 12 cooperados e uma área de 43,3 hectares, com inserção de sistemas regenerativos e corredores de árvores nas lavouras. Como resultado, houve sequestro de 650 toneladas de carbono e distribuição de mais de R$ 104,6 mil aos produtores participantes. “Trata-se do primeiro projeto no Brasil a gerar unidades de carbono a partir da arborização de lavouras de café. Avanço que conecta campo, ciência e mercado e aponta para o futuro da produção cafeeira. Além disso, a iniciativa cria oportunidades reais de geração de renda e fortalece a competitividade da cafeicultura brasileira”, conclui Natalia. 

Atualmente, o projeto da Cooxupé está em uma nova fase, com edital aberto para adesão de mais cooperados, além da entrada da certificadora internacional Gold Standard, uma das mais reconhecidas do mundo. Dessa forma, os créditos de carbono poderão também ser comercializados no modelo de “offsetting”, ampliando o alcance da iniciativa para além da cadeia do café.

Coordenação

Origens

Mais acessadas nos últimos 30 dias

Mais recentes

Mais recentes

logopeabirus

REDE SOCIAL DO CAFÉ
Infraestrutura ativa de informação, comunicação e conexão do sistema agroindustrial dos Cafés do Brasil

Voltar ao topo