Última atualização: 20/08/2026 às 14:14
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Pressão acadêmica estaria entre os pontos que contribuem com o uso excessivo de estimulantes por parte dos jovens sul-coreanos
Por Maria Clara Lacerda | O Tempo

Cafeína vira “bolsa de sangue” para jovens coreanos, entre misturas doces com cafeína, energéticos e variações | Foto: Reprodução/Redes sociais
A relação com a cafeína entre os jovens ultrapassou o consumo habitual e ganhou um nome próprio na Coreia do Sul: “caffeinetopia“. O termo descreve uma cultura em que café e bebidas estimulantes estão presentes em praticamente todos os momentos do dia, sendo impulsionados entre os sul-coreanos pela pressão acadêmica intensa e acesso facilitado.
O fenômeno preocupa especialistas, especialmente porque o hábito tem chegado cada vez mais cedo, atingindo crianças e adolescentes em fase de desenvolvimento. A dimensão da dependência cultural é tão conhecida no país que os próprios jovens fazem piada sobre ela nas redes sociais. O café preto passou a ser chamado ironicamente de “bolsa de sangue”, segundo a Asian News, uma metáfora que resume que a bebida deixou de ser um prazer para se tornar combustível obrigatório para dar conta de manter a rotina.
Pressão acadêmica e o papel da cafeína
Por trás da brincadeira, existe uma realidade documentada. Uma pesquisa publicada na Revista Coreana de Educação Médica, realizada em 2023 com 443 alunos de medicina, obteve respostas de 361 participantes. Desse grupo, 60,9% afirmaram consumir cafeína especificamente para melhorar o desempenho acadêmico. A ingestão média estimada chegou a 274,6 mg por dia, e 19,9% dos estudantes consumiam 400 mg ou mais diariamente.
Os efeitos físicos desse consumo elevado apareceram com frequência alta. Noventa e oito por cento dos participantes relataram ao menos um sintoma possivelmente associado à cafeína. Os mais citados foram palpitações, micção frequente e ansiedade, por 27,1%.
A acessibilidade na Coreia do Sul reforça o padrão de consumo entre os jovens. Cafeterias de baixo custo, lojas de conveniência com bebidas energéticas e cafés enlatados, além de aplicativos de delivery, tornam a cafeína disponível praticamente a qualquer hora em todo o país.
Bebidas ‘escondem’ a cafeína
Um dos aspectos mais delicados da caffeinetopia é a exposição precoce. O contato com cafeína entre crianças e adolescentes costuma ocorrer por meio de produtos que não se parecem com café: bebidas energéticas coloridas, refrigerantes, matcha, chás com leite e cafés solúveis combinam cafeína com sabores doces, além apresentação atraente para o público jovem.
Para dimensionar as quantidades envolvidas, os teores de cafeína variam conforme a bebida:
- Café expresso: aproximadamente 112 mg por xícara de 40 ml;
- Matcha: cerca de 44 mg por porção preparada com 1,5 g de matcha;
- Chá verde (40 mg por xícara de 200 ml) e chá preto (36 mg por xícara de 200 ml);
- Bebida energética: 75 mg por lata de 250 ml;
- Café coado: cerca de 45 mg por xícara de 150 ml.
Os próprios jovens sul-coreanos também desenvolveram combinações próprias. O “Eol-bak-sa” mistura gelo, Bacchus (bebida energética sul-coreana não gaseificada, com cafeína e taurina) e limonada. O “A-shot-chu” combina chá gelado com uma dose extra de café expresso. Já o “Bak-gal-bae” une Bacchus com uma bebida coreana de pera.@gonzo_travel_koreaExhausted from a full day in Seoul? Grab this at any convenience store. It’s called Eolbaksa — ice, Bacchus, and cider. Outsold Monster and Hot6 with students and office workers running on empty. Comment “EOLBAKSA” for the exact ratio guide 👇#seoul#koreanconveniencestore#koreanconveniencestoredrinks#traveltokorea#koreatravelguide#GS25#CU#koreandrinks#energydrink#visitkorea♬ 오리지널 사운드 – Gonzo Travel
A preocupação com o grupo mais jovem tem respaldo científico. Um estudo de revisão publicado na Revista Médica de Minas Gerais, que analisou pesquisas publicadas entre 2004 e 2014, concluiu que não há segurança estabelecida para o consumo de bebidas cafeinadas por crianças e adolescentes.
Os pesquisadores apontaram que a cafeína não traz benefícios conhecidos nessa faixa etária e pode provocar efeitos adversos, interferir no desenvolvimento dos sistemas nervoso e cardiovascular e elevar o risco de dependência e intoxicação.
As bebidas energéticas tornam o quadro mais complexo. Segundo a mesma revisão, uma lata costuma conter entre 80 e 140 mg de cafeína, quantidade equivalente a aproximadamente uma xícara de café ou a duas latas de refrigerante. O estudo também destacou que essas bebidas frequentemente incluem outras substâncias estimulantes, como taurina e derivados vegetais, cujos efeitos combinados ainda não são completamente compreendidos pela ciência.