Pesquisadores explicam por que o cultivo dos grãos faz o café ter uma pegada hídrica tão alta na produção agrícola

Última atualização: 20/08/2026 às 12:06

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Por Maria Beatriz Silva

Pesquisadores explicam por que o cultivo dos grãos faz o café ter uma pegada hídrica tão alta na produção agrícola

Uma xícara de café parece conter apenas 125 mililitros de água, mas sua produção envolve um volume muito maior. A diferença está escondida na cadeia produtiva, principalmente no cultivo dos grãos. Antes de a água chegar à chaleira, a planta já dependeu de grandes quantidades de chuva e, em alguns locais, de irrigação para crescer e produzir os frutos.

Por que o café carrega uma quantidade de água tão maior que a bebida?

A água presente na xícara representa apenas uma pequena parte do que foi necessário para produzir o café. Os grãos começam sua trajetória no campo, onde a planta precisa de água para crescer, florescer e formar os frutos. Depois, ainda existem etapas de processamento até que o produto esteja pronto para ser torrado e preparado.

O contraste é enorme: uma xícara padrão considerada no estudo possui 125 mililitros, enquanto sua pegada hídrica chega a aproximadamente 140 litros. Isso significa que o volume associado à produção é mais de mil vezes superior à quantidade de bebida colocada na xícara, mostrando que o consumo de água de um alimento pode estar distante do momento em que ele é consumido.

Uma xícara padrão de 125 ml pode ter uma pegada hídrica de aproximadamente 140 litros

O cultivo dos grãos explica a maior parte dessa pegada hídrica?

A maior parcela da água associada ao café aparece antes da torra e do preparo. A planta precisa de água durante seu desenvolvimento, e essa demanda varia conforme região, clima, produtividade e características do cultivo. Por isso, olhar apenas para a água usada para preparar a bebida deixa de fora a etapa mais significativa da produção.

Pesquisas da Universidade de Twente indicam que uma xícara padrão de café exige cerca de 140 litros de água, sendo a maior parte atribuída ao crescimento da planta. O estudo também aponta que grande parte dessa água vem da chuva, enquanto o processamento representa uma parcela muito menor do volume total.

Veja a seguir um vídeo do YouTube do canal T&D Sustentável, que aborda o conceito de pegada hídrica:

Os 140 litros significam que uma pessoa está gastando essa água ao preparar o café?

Não exatamente. A cifra de 140 litros representa uma pegada hídrica calculada para uma xícara padrão, e não 140 litros saindo da torneira quando alguém prepara a bebida. O conceito inclui a água relacionada à produção do café nos locais onde os grãos são cultivados e processados, muitas vezes a milhares de quilômetros do consumidor.

Essa distinção também evita uma interpretação equivocada do número. Grande parte da água considerada no cálculo é chuva incorporada ao desenvolvimento da cultura, e não água potável desperdiçada na cozinha. Além disso, a quantidade pode mudar conforme origem dos grãos, produtividade, condições climáticas, quantidade utilizada por xícara e características do sistema produtivo.

Quais etapas fazem parte da água associada a uma xícara de café?

A chamada pegada hídrica considera diferentes formas de uso da água relacionadas à produção. No caso do café, o cultivo domina o cálculo, mas processamento e outras etapas também entram na cadeia. Isso ajuda a perceber que o impacto hídrico de um produto não aparece necessariamente no local onde ele é consumido.

Entre os principais componentes dessa trajetória estão:

O que essa diferença entre a xícara e a produção revela sobre o consumo?

O caso do café mostra que o uso de água de um produto começa muito antes de ele chegar à mesa. A água da bebida é visível, enquanto aquela empregada no cultivo permanece escondida na cadeia de produção. Essa diferença ajuda a compreender por que alimentos e bebidas podem ter impactos ambientais que não aparecem imediatamente durante seu consumo.

Na prática, isso não significa que uma pessoa precise abandonar o café por causa de um único número. O dado serve para ampliar a percepção sobre a origem dos produtos e sobre os recursos envolvidos. Ao considerar a cadeia inteira, escolhas de consumo passam a ser analisadas com mais contexto, especialmente em regiões onde a disponibilidade de água é uma questão importante.

Fonte: Correio Braziliense

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