Última atualização: 29/08/2026 às 18:22
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Os 300 anos da introdução do café no país, os 140 anos do Instituto Agronômico, os 30 anos do Consórcio Pesquisa Café, a celebração dos 20 anos da Rede Social do Café e a realização da ASIC no Brasil fazem de 2027 um marco para a cafeicultura brasileira. A história já está marcada. O legado dependerá da nossa capacidade de articulação.

O ano de 2027 já entrou para a história dos Cafés do Brasil.
As datas estão definidas, os acontecimentos estão confirmados e o simbolismo é incontestável. O que ainda não sabemos é como o setor cafeeiro brasileiro aproveitará essa convergência, que dimensão dará a ela e, principalmente, qual legado será deixado para o futuro.
A história acontecerá de qualquer maneira. Seu impacto dependerá de nós.
Em 2027, o Brasil completará 300 anos da introdução do café em seu território. O Instituto Agronômico celebrará 140 anos. O Consórcio Pesquisa Café chegará aos 30 anos. A Rede Social do Café está celebrando duas décadas de atuação. E o Brasil sediará a 31ª Conferência da Association for the Science and Information on Coffee (ASIC), principal encontro mundial dedicado à ciência e à tecnologia do café.
Essa convergência atravessa também minha trajetória profissional. Como pesquisador da Divisão de Café do IAC, acompanho o Consórcio Pesquisa Café praticamente desde seu início e participo há duas décadas da construção e articulação da Rede Social do Café. Portanto, não observo essas datas apenas como acontecimentos do calendário, mas como capítulos de uma história que acompanhei por dentro.
É justamente por reconhecer a dimensão desse encontro que considero necessário lançar, desde já, esta provocação: o que faremos com 2027?
Foi em 1727 que o sargento-mor Francisco de Melo Palheta trouxe da Guiana Francesa as primeiras sementes e mudas de café para o Brasil. A partir daquele momento, a cultura atravessaria regiões, transformaria paisagens e se tornaria uma das grandes forças propulsoras do desenvolvimento nacional.
Ao longo dos três séculos seguintes, o café movimentou a economia, contribuiu para a formação de cidades, impulsionou ferrovias e portos, abriu mercados, ajudou a financiar a industrialização e projetou o Brasil internacionalmente.
Mas essa importância não pode ser medida apenas pelas riquezas produzidas. A história do café foi construída pelo trabalho de milhões de pessoas, pela ocupação de diferentes territórios, pela formação de identidades regionais e pelo desenvolvimento de conhecimentos e tecnologias que transformaram a agricultura brasileira.
Três séculos depois, o país permanece como o maior produtor mundial e ocupa posição central no abastecimento, na pesquisa, na diversidade de origens e na construção do futuro da cafeicultura.
Ainda durante o Império, Dom Pedro II compreendeu que o desenvolvimento agrícola brasileiro precisava estar apoiado na ciência. Em 27 de junho de 1887, foi criada a Imperial Estação Agronômica de Campinas, especialmente voltada ao estudo do café, então a principal atividade econômica do país.
Hoje denominado Instituto Agronômico, o IAC completará 140 anos em 2027. É uma das instituições-mães da ciência agrícola brasileira e responsável por contribuições fundamentais para a evolução da cafeicultura.
Seus trabalhos em melhoramento genético, manejo, solos, fitossanidade, qualidade e sistemas de produção ajudaram a construir a base científica que sustenta o café brasileiro. Cultivares desenvolvidas pelo Instituto estão presentes em grande parte das lavouras nacionais e também contribuíram para o desenvolvimento da cafeicultura em outros países.
A criação da Imperial Estação Agronômica revelou uma visão estratégica: uma atividade da importância do café não poderia depender apenas da expansão das lavouras e das condições de mercado. Precisava estar sustentada por pesquisa, conhecimento, instituições e investimentos de longo prazo.
Décadas mais tarde, o Instituto Brasileiro do Café (IBC), criado em 1952, assumiria papel central na organização da cafeicultura nacional. Sua atuação abrangia a definição e a execução da política cafeeira, o acompanhamento da produção, a comercialização interna e externa, a assistência técnica e econômica aos produtores e o desenvolvimento de estudos e pesquisas. Durante quase quatro décadas, o Instituto foi a principal estrutura federal dedicada ao café e exerceu influência sobre praticamente todos os elos do setor.
Com sua extinção, em 1990, o Brasil perdeu essa estrutura central de coordenação. A pesquisa cafeeira foi uma das áreas mais afetadas, passando por um período de desarticulação institucional e redução de recursos. A resposta começou a ser construída pela união de instituições tradicionais e pela compreensão de que nenhuma organização, isoladamente, seria capaz de atender às demandas de uma cafeicultura tão ampla e diversa.
Em 3 de março de 1997, nasceu o Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, atualmente conhecido como Consórcio Pesquisa Café. Em 2027, o Consórcio completará 30 anos de uma experiência singular de organização da pesquisa em rede. Ao longo dessa trajetória, reuniu instituições, pesquisadores, estruturas e recursos; financiou projetos; formou profissionais; estimulou parcerias; gerou tecnologias e ajudou a manter a ciência brasileira do café entre as mais respeitadas do mundo.
Mais do que uma estrutura administrativa, o Consórcio representou a construção de um modelo de cooperação. Dessa articulação nasceram conhecimentos, contratos, publicações, redes de pesquisa e gerações de profissionais que contribuíram diretamente para os avanços da cafeicultura brasileira.
Foi também no ambiente institucional do Consórcio Pesquisa Café que surgiu, em 2006, a Rede Social do Café. Criada para promover o intercâmbio de informações e a construção coletiva do conhecimento, a Rede celebra uma trajetória de 20 anos conectando pesquisadores, produtores, extensionistas, cooperativas, empresas, instituições e comunicadores.
Ao longo dessas duas décadas, milhares de notícias, pesquisas, opiniões, debates e experiências circularam pela Rede. Mais do que armazenar informações, ela aproximou pessoas e conhecimentos muitas vezes separados por instituições, regiões ou áreas de atuação.
Agora, essa trajetória chega a 2027 reforçando três elementos indispensáveis para transformar o tricentenário em algo maior do que uma comemoração: articulação, conectividade e comunicação.
Para completar esse ano histórico, o Brasil receberá a 31ª Conferência da ASIC, reunindo pesquisadores, profissionais, instituições e representantes de diferentes países.
No ano em que o país completará três séculos de café, a comunidade científica internacional estará aqui para discutir conhecimento, inovação, sustentabilidade, qualidade, produção, transformação digital e os caminhos futuros da atividade.
Não poderia haver momento mais simbólico.
Entretanto, os 300 anos do café no Brasil não pertencem apenas às instituições mencionadas neste artigo. Essa história envolve produtores e trabalhadores, pesquisadores e extensionistas, cooperativas e associações, empresas e indústrias, universidades e centros de pesquisa, governos, consumidores, comunicadores e todas as regiões cafeeiras do país.
Por isso, 2027 precisa ir além de solenidades, homenagens e comemorações isoladas.
Será necessária uma articulação nacional capaz de integrar o setor público e a iniciativa privada, envolver governos, instituições, empresas, entidades e lideranças e comunicar essa história à sociedade brasileira e ao mundo.
Precisamos pensar desde já em eventos, pesquisas, publicações, documentários, exposições, atividades culturais e educacionais, roteiros turísticos e iniciativas que valorizem a memória, o presente e o futuro do café brasileiro.
O tricentenário pode reconhecer personagens e instituições, recuperar documentos e histórias, aproximar a ciência da sociedade, valorizar as regiões produtoras, fortalecer a imagem dos Cafés do Brasil e ampliar o diálogo com os consumidores.
Também pode abrir espaço para os desafios que determinarão os próximos capítulos dessa trajetória: mudanças climáticas, sustentabilidade, sucessão rural, inovação tecnológica, agregação de valor, condições de trabalho, transformação digital, comunicação e competitividade internacional.
Sem coordenação, corremos o risco de realizar bons eventos e comemorações isoladas, mas perder a oportunidade de construir uma agenda integrada e um legado duradouro.
A pergunta não é se 2027 será histórico. Isso já está decidido.
As perguntas são outras: o que faremos com esse momento? Qual será a participação de cada instituição? Que investimentos serão realizados? Teremos uma programação nacional articulada ou iniciativas desconectadas? Como envolveremos os diferentes segmentos do ecossistema cafeeiro? Como o Brasil apresentará ao mundo seus 300 anos de café? E, quando 2027 terminar, o que permanecerá?
O calendário já marcou esse encontro. A história já começou.
O legado dependerá daquilo que formos capazes de construir juntos.
Saudações Cafeeiras…
Sérgio Parreiras Pereira
Pesquisador científico do Instituto Agronômico e articulador da Rede Social do Café
30 de agosto de 2026
