Última atualização: 31/08/2026 às 11:21
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Pesquisadores da temática climática apontam que para a cultura do café, o planeta perderá metade das áreas apropriadas para a sua cultura
Por Orlando Caliman | Folha Vitória

Lavoura de café. Foto: Incaper/Divulgação
Surpreendeu-me um artigo, aliás extenso e aprofundado, publicado na revista The Economist na sua última edição. Nem tanto pela exposição do conteúdo, mas pela força do título: “The Maverick Scientist Trying to Save Coffee From Extinction”. Em tradução livre: “Um cientista independente – não convencional – tentando salvar o café da extinção”.
Trata-se de Aaron Davis, chefe do setor de pesquisa sobre o café no Royal Botanic Gardens, em Londres. Obcecado por cafés e observando que no mundo de hoje dominam apenas duas espécies Coffea arabica e Coffea canefora, já tradicionais arábica e robusta, ele busca descobrir espécies perdidas no tempo.
E a principal razão que o move é justamente encontrar espécies que sejam mais resistentes ao problema do crescente aquecimento do planeta.
Arábica e robusta, robusta em menor intensidade, são plantas que gostam de água e sofrem também quando em ambiente de altas temperaturas. Secas prolongadas foram responsáveis por fortes quedas na produção global de cafés.
Caso, por exemplo do Vietnã, com o robusta, com queda de 20% na oferta em 2023, e que ainda não retornou à normalidade. Nos anos de 2015 e 2016 também o robusta/conilon capixaba sofreu forte queda na oferta.
O certo é que como em outras culturas a cafeicultura mundial terá a enfrentar um desafio estrutural por conta das mudanças climáticas que se preveem intensificadas nas próximas décadas.
Estudiosos e pesquisadores da temática climática apontam que especificamente para a cultura do café, o planeta perderá metade das áreas mais apropriadas para a sua cultura.
Mas, a ameaça não se restringe apenas às espécies de cafés que hoje plantamos. Há indicativos de que cerca de 60% das chamadas espécies classificadas como selvagens também estão sendo gradualmente sendo dizimadas. E dentre estas, algumas que já foram testadas comercialmente e não mais são cultivadas.
É onde entra a saga do pesquisador Davis: o interesse em redescobrir espécies perdidas – “lost coffee species”.
Trata-se da busca por espécies raras que pela maior capacidade de resistirem a mais altas temperaturas e pouca água, poderão repovoar áreas hoje cobertas pelo arábica e robusta. E mais além da resiliência climática primem pelo sabor. Uma busca do que seria o café do futuro.
Foi assim que Davis chegou à espécie stenophylla, uma planta que poderá contribuir de forma significativa para a resiliência climática no cultivo do café. Foi encontrá-la na costa oeste da África, mais precisamente nas florestas centrais de Serra Leoa. Uma espécie que foi comercialmente cultivada até o início do século XX, mas que desapareceu.
Registro dessa espécie foi feita em 1896 em ilustração publicada na “Curti’s Botanical Magazine, no Missouri -EUA – Missouri Botanical Garden – acompanhada com a observação: “superior flavor” – sabor superior.
É atribuída também a Davis e sua equipe de pesquisadores a descoberta de 130 espécies de café selvagem – wild coffee. Especificamente o stenophylla foi redescoberto em 2018 e de lá para cá vem sendo estudado e testado.
Já chamou a atenção de grandes torrefadoras como a Illycaffè. Também entrou no radar da Starbucks na expectativa de tê-la como matéria prima no futuro.
No momento Davis e sua equipe desenvolvem projeto piloto em Serra Leoa com produtores locais, testando inclusive combinações hibridas que combinem produtividade, densidade, manejo e resiliência climática.
O certo é que nenhuma espécie isoladamente “salvará” o café. A resposta deverá resultar de combinações entre biodiversidade, genética, melhoramento vegetal, adaptação dos sistemas produtivos e viabilidade econômica.
Para o Espírito Santo, segundo produtor nacional de cafés e primeiro da espécie canéfora/robusta, a matéria serve de alerta e ao mesmo tempo de motivação para a intensificação de estudos e pesquisas na busca de maior resiliência climática.
O fenômeno El Niño já nos aponta a direção das mudanças. Não por sorte, o Espírito Santo tem legado exitoso nesse campo, especialmente nos cafés.