Última atualização: 31/08/2026 às 11:28
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Na lavoura, a família Favoreto mantém viva a tradição do café e, ao mesmo tempo, transforma o trabalho no campo em experiência. Foto: Divulgação
Durante décadas, o futuro de cafeicultores de Muniz Freire, no Caparaó capixaba, esteve ligado à próxima safra. Hoje, o café continua sendo a principal atividade, mas algumas propriedades descobriram que podem ganhar dinheiro também abrindo as porteiras para visitantes. Em vez de vender somente o grão, produtores passaram a comercializar histórias, degustações, receitas, paisagens e o próprio processo que transforma o fruto em bebida.
É uma mudança que começa a redesenhar a relação entre agricultura e turismo no município. Lançada no fim de 2025, a Rota Cafés de Muniz Freire reúne dez propriedades e empreendimentos que oferecem experiências ligadas ao café, à gastronomia, à natureza e à cultura rural. A iniciativa foi construída com participação da Prefeitura de Muniz Freire, Sebrae/ES, Cresol Fronteiras e Sistema OCB/ES, com o objetivo de agregar valor à produção e criar novas possibilidades de renda para os produtores.
O projeto também revela uma característica importante do cooperativismo: a capacidade de conectar diferentes atores em torno de um problema comum. No caso de Muniz Freire, a questão era como fazer com que uma produção de cafés especiais já reconhecida pudesse gerar ainda mais valor para as famílias que vivem dela.
Segundo o analista de Desenvolvimento Cooperativista do Sistema OCB/ES, Vinícius Schiavo, a proposta nasceu de uma articulação iniciada pela Cresol Fronteiras, que procurou a entidade para ajudar a estruturar a iniciativa. O Sistema OCB/ES, por sua vez, articulou a participação do Sebrae/ES, que entrou com a consultoria especializada, enquanto a prefeitura e os produtores participaram da construção da rota.
“A Rota Cafés fortalece e amplia a divulgação de um trabalho que esses produtores já realizavam com muita qualidade”, afirma Schiavo.
Do café à experiência

José Louir Valani, produtor do Louir Cafés Especiais, prepara a propriedade da família em Muniz Freire para uma nova fase. Foto: Divulgação
A mudança já pode ser vista na propriedade de José Louir Valani, produtor do Louir Cafés Especiais, de 60 anos. A história da família se confunde com a própria trajetória da cafeicultura de Muniz Freire. Criado entre os cafezais do pai e dos avós, ele recebeu um pedaço de terra ao se casar, em 1991, e começou ali a própria produção.
A família hoje mantém cerca de oito mil covas de café em Muniz Freire, das quais aproximadamente seis mil estão em produção e outras duas mil passam por renovação. A propriedade também investiu em estruturas de pós-colheita, como estufa e secador, em uma tentativa de tornar o processo mais eficiente diante da redução da mão de obra familiar.
A mudança mais importante, porém, veio em 2017. Na época, Rafael Muniz Valani, hoje com 26 anos, estudava em uma escola agrícola e precisava desenvolver um projeto. O pai sugeriu que ele aproveitasse a oportunidade para estudar formas de melhorar a qualidade do café produzido pela família.
O projeto levou a família a investir na produção de cafés especiais. O resultado apareceu rapidamente: a propriedade venceu um concurso de cafés especiais em Muniz Freire em 2017 e repetiu a conquista no ano seguinte. A partir daí, a família passou a perceber o café de outra maneira. E também começou a perceber o consumidor de outra forma.
Nas feiras das quais participa com apoio do Sebrae/ES, José Louir passou a ouvir uma pergunta recorrente: de onde vem aquele café? Os consumidores queriam conhecer a lavoura, entender o processo de produção e saber quem estava por trás da marca.
Foi quando o produtor percebeu que havia ali uma oportunidade que ia além da venda do grão. A propriedade começou a ser adaptada para receber turistas. Uma nova estrutura está sendo construída para hospedagem e atendimento, com varanda destinada às degustações. A família pretende oferecer café produzido na própria propriedade e receitas caseiras, como rosquinha de sal amoníaco e bolos. A previsão é que a estrutura fique pronta entre o fim deste ano e o início de 2027.
O investimento ganhou velocidade com o crédito da Cresol. Segundo José Louir, sem o financiamento o projeto não sairia do papel naquele momento. “Sem esse crédito, esse projeto não sairia do papel agora. Ele deu agilidade e nos encorajou a tirar essa vontade do papel”, afirma.
Para o produtor, o objetivo não é apenas construir um espaço para receber visitantes, mas deixar uma nova possibilidade para as próximas gerações. “Que seja um lugar bem aconchegante, que atraia as pessoas e que a gente possa cuidar direitinho”, deseja.
Uma lavoura que virou destino

Maria Aparecida Trindade e o filho Eduardo recebem visitantes no Sítio Alto Cachoeira, em Muniz Freire, onde a hospitalidade da família virou parte da experiência com café especial. Foto: Divulgação
E bem perto dali, ainda na Rota Cafés de Muniz Freire, o Sítio Alto Cachoeira também começou a transformar a produção de café em experiência turística. Maria Aparecida Trindade, de 48 anos, trabalha na lavoura desde os nove e há cerca de oito anos passou a investir em cafés especiais.
A decisão surgiu depois que pessoas que conheciam a propriedade perceberam o potencial dos grãos produzidos na região e sugeriram que a família experimentasse. O primeiro lote teve apenas uma saca. As três famílias que vivem no sítio se uniram para produzir o café especial e, depois de cinco anos comercializando o grão cru, decidiram criar a própria marca.
A estratégia mudou quando o preço do café convencional se aproximou do valor obtido pelo especial. Em vez de continuar vendendo apenas o grão, a família passou a trabalhar também a identidade do produto.
O turismo encontrou uma propriedade que já tinha uma característica essencial: hospitalidade. Amigos e conhecidos sempre eram recebidos no sítio. A diferença foi perceber que aquela acolhida também poderia se transformar em uma experiência turística. O incentivo veio da Secretaria Municipal de Turismo, que apresentou a proposta de integrar o local à rota.
Eduardo Trindade, de 23 anos, filho de Maria, lembra que a família precisou mudar a própria percepção sobre receber visitantes. “A gente já fazia turismo, porque já recebia as pessoas. Só precisava cobrar por isso. Demoramos um pouco para aceitar essa ideia”, conta.
A primeira experiência oficial reforçou a percepção. Depois de participar de mentorias de um projeto do Sicoob voltado ao turismo, a família cadastrou a propriedade em ferramentas de localização. Um casal que seguia de Guarapari para Belo Horizonte encontrou o sítio e decidiu parar para tomar café.
A família ainda não estava preparada. Serviu o que havia naquele dia: bolo de nata caseiro e café preparado em dois métodos diferentes. A simplicidade agradou. Os visitantes elogiaram a recepção e ainda levaram um pacote de café especial.

No Sítio Alto Cachoeira, em Muniz Freire, os visitantes são recebidos com quitutes caseiros. Foto: Divulgação
Hoje, a experiência custa R$ 40 por pessoa e inclui acolhida, história da família, visita à lavoura, torra e degustação, além de quitutes preparados por Maria, como biscoito de nata, bolo de café e salgados.
A estrutura, porém, ainda é limitada. As visitas acontecem na própria casa e a família reconhece a necessidade de melhorar a acessibilidade e preparar o espaço para receber mais pessoas. As condições das estradas também interferem diretamente no negócio. Segundo Maria, já houve turistas que desistiram da visita depois que as chuvas prejudicaram os acessos.
Mesmo com essas dificuldades, o turismo já provocou uma mudança significativa na família. Eduardo concluiu a graduação, trabalhou em Vitória e continuou acompanhando o crescimento da marca. Com o avanço do negócio, decidiu retornar para Muniz Freire e se dedicar integralmente à produção. Hoje, segundo ele, café e turismo representam praticamente metade da receita cada.
“Eu tinha outros sonhos, mas, com o crescimento da marca, recalculei esses sonhos e voltei para a produção de café”, afirma Eduardo.
Cinco gerações e uma nova cafeteria

As três irmãs que estão à frente do Café Três Anas transformaram a tradição cafeeira da família em marca e experiência turística em Muniz Freire. Foto: Divulgação
A história da família Favoreto também mostra como o turismo pode se somar à tradição sem substituir a agricultura. Tatiana Favoreto faz parte da quinta geração da família ligada ao café. A propriedade onde vivem hoje está nas mãos da família há quase 70 anos. Durante muito tempo, os cuidados adotados no cultivo e no pós-colheita eram vistos apenas como parte da rotina. Mais tarde, a família descobriu que aqueles procedimentos ajudavam a produzir cafés especiais.
Antes mesmo de criar a marca Café Três Anas, Tatiana havia aberto a cafeteria Delícias do Caparaó, em Iúna, em 2019. O espaço nasceu como uma vitrine para produtores da região. Durante a pandemia, ela e o marido retornaram à propriedade em Muniz Freire e começaram a enviar para a cafeteria o café produzido pela família.
A aceitação surpreendeu. O café passou a ser comercializado pela marca criada por Tatiana e pelas irmãs Juliana e Poliana. No ano passado, a família produziu cerca de 40 sacas de 60 quilos de café especial e trabalha com a expectativa de ampliar novamente esse volume.
A aproximação com os consumidores também revelou uma demanda semelhante à percebida por José Louir: as pessoas queriam conhecer a origem do café.
Nos últimos tempos, a família recebeu entre 20 e 25 visitas na propriedade. Hoje, a experiência pode incluir uma visita à estrutura de pós-colheita, explicações sobre a produção e degustação no fim da tarde, com vista para a Serra do Caparaó e o Pico da Bandeira.
A cafeteria também chegou a Muniz Freire e passou a integrar a rota. Para Tatiana, o turismo representa uma forma de agregar valor ao que a família já produz.
A lógica está presente em outras propriedades da rota. Algumas oferecem trilhas e cachoeiras; outras apostam em mel, gastronomia, hospedagem, torra ou experiências sensoriais. O café é o elo, mas cada família encontra uma maneira própria de transformar a produção em experiência.
Quando o cooperativismo entra pela porteira
As histórias de José Louir, Maria Aparecida e da família Favoreto mostram o que acontece dentro das propriedades. Mas, para que essas iniciativas ganhassem estrutura e conexão, outras instituições também precisaram entrar em cena. A Rota Cafés de Muniz Freire não criou a vocação turística das propriedades.
A Cresol Fronteiras foi a principal articuladora da iniciativa dentro do cooperativismo. Segundo a supervisora de Relacionamento da cooperativa, Laisa Emanuele Menin, a proposta surgiu do encontro entre uma demanda do poder público e o interesse dos produtores em estruturar os empreendimentos para receber visitantes. Por meio do Programa Empreendedorismo Rural, a cooperativa conectou os diferentes atores envolvidos na iniciativa.
Para a Cresol, a lógica começa antes do crédito. A cooperativa trabalha com planejamento, orientação e capacitação e, depois, disponibiliza soluções financeiras de acordo com as necessidades de cada empreendimento. Entre as opções citadas está o Fungetur, voltado ao fortalecimento de empreendimentos turísticos, além de linhas de crédito rural e empresarial.
A experiência de José Louir mostra como essa relação pode chegar à ponta. O financiamento permitiu que uma intenção antiga se transformasse em obra. No Sítio Alto Cachoeira, por outro lado, a família ainda avalia os investimentos necessários para adequar a propriedade.
Essa diferença é importante porque mostra que o cooperativismo não produz uma solução igual para todos. A proposta é identificar a necessidade de cada negócio e apoiar seu desenvolvimento.
“Esse modelo demonstra a diferença entre simplesmente conceder crédito e promover desenvolvimento”, afirma Laisa.
Segundo a supervisora da Cresol, a rota também materializa o sétimo princípio do cooperativismo, relacionado ao interesse pela comunidade. A ideia é que o fortalecimento de cada produtor produza efeitos para além da propriedade, movimentando turismo, comércio, serviços e outras atividades.

Equipe da Cresol Fronteiras durante visita à Cafeteria Delícias do Caparaó, empreendimento que integra a Rota Cafés de Muniz Freire. Foto: Divulgação
Uma rede que começou a se formar
Se a Cresol foi a primeira ponte dentro do cooperativismo, o Sistema OCB/ES entrou na construção da rota a partir dessa articulação. Para o analista de Desenvolvimento Cooperativista do Sistema OCB/ES, Vinícius Schiavo, o turismo representa uma possibilidade de diversificar o acesso ao mercado.
No caso de Muniz Freire, dez propriedades foram contempladas pelo projeto e receberam consultoria para aprimorar experiências que já ofereciam ou tinham potencial para oferecer.
A atuação envolveu organização, atendimento, comercialização e valorização dos produtos locais. “O turismo representa uma alternativa para diversificar o acesso ao mercado e agregar valor às atividades já desenvolvidas nas propriedades rurais”, explica Schiavo.
O analista também aponta um impacto que vai além da renda: a sucessão familiar. Ao incorporar tecnologia, inovação e novas formas de comercialização, o campo passa a oferecer outras possibilidades profissionais para os jovens. Em Muniz Freire, esse movimento já aparece na história de Eduardo, que deixou o trabalho em Vitória para voltar à propriedade da família, e também em outras propriedades em que filhos e netos passaram a assumir novas funções no negócio rural.
Para o Sistema OCB/ES, quando uma família consegue fortalecer economicamente sua propriedade, ela passa a ter mais condições de investir, valorizar sua produção e estimular outros produtores. É um efeito que ultrapassa a porteira.
Uma sala para transformar grão em marca

Sala de Degustação de Café em Muniz Freire. Foto: Divulgação
A experiência que chega ao visitante começa bem antes da porteira. Ela passa pela qualidade do café e por estruturas que ajudam o produtor a conhecer melhor o próprio produto e ampliar suas possibilidades de comercialização. Em Muniz Freire, esse trabalho ganhou espaço na Sala de Degustação e Classificação de Cafés, criada pelo município para apoiar os produtores.
A sala reúne equipamentos e conhecimento técnico para avaliar os grãos produzidos na região. É ali que o degustador e classificador Rogério Souza de Oliveira realiza a avaliação sensorial dos cafés, definindo pontuação e classificação.
Esse processo ajuda a identificar a qualidade do produto e pode ampliar as possibilidades de comercialização. Os números ajudam a dimensionar a mudança. Em 2021, Muniz Freire tinha duas marcas registradas de cafés especiais. Hoje, são 18.
O município também modernizou a Sala de Degustação e Classificação, que passou a funcionar em um espaço maior e climatizado, e inaugurou uma Sala de Torra. Na nova estrutura, o produtor pode levar o café para ser torrado, embalado e sair com o produto pronto para comercialização.
De acordo com o secretário municipal de Agricultura, Renato Bueno, a estrutura foi um dos pontos de partida para organizar o movimento dos cafés especiais no município. A prefeitura investiu cerca de R$ 500 mil na sala de torra e prova, segundo ele.
O trabalho também ajudou a formar um grupo de produtores de cafés especiais. Atualmente, 42 produtores integram esse movimento, segundo o secretário.
A estrutura, portanto, ajuda a explicar como a rota se tornou possível. Antes de vender a experiência, era preciso fortalecer o produto que seria apresentado ao visitante.
A história do café vai além das propriedades

Projeto da Fazenda Santa Maria, em Muniz Freire. Foto: Divulgação/Sebrae-ES
A Rota Cafés não é a única frente que busca transformar Muniz Freire em destino turístico. Um dos projetos mais ambiciosos está na Fazenda Santa Maria, patrimônio histórico considerado um dos mais importantes do município e da região do Caparaó.
O Sebrae/ES, em parceria com a Prefeitura de Muniz Freire, desenvolveu o Projeto Conceitual e Visual do Complexo Turístico, Ambiental e Cultural Fazenda Santa Maria, com a proposta de reposicionar o território como um polo de turismo de experiência.
O local é a edificação mais antiga do município e reúne diferentes capítulos da história regional, incluindo a memória da escravidão, a imigração italiana e a evolução da produção cafeeira.
O projeto prevê novos usos para o patrimônio preservado, com museu interpretativo, espaços culturais, gastronomia, eventos, trilhas, vivências rurais, loja de produtos locais, horta e pomar, além de experiências relacionadas ao café, à história e à natureza.
Segundo a analista do Sebrae/ES Dalvina de Oliveira, os projetos arquitetônicos já foram finalizados. Entre as intervenções previstas estão a restauração do casarão, da antiga senzala, que será transformada em uma Casa de Memórias, e da Casa do Colono, que deverá abrigar o Museu do Café.
A antiga serraria, com sua roda d’água, também será restaurada. A roda foi retirada da área onde estava parcialmente coberta pela vegetação e deverá passar por recuperação.
O projeto executivo, etapa que detalhará a execução das intervenções, está em andamento. Enquanto isso, a área passa por limpeza e organização dos caminhos.
A previsão informada pelo Sebrae/ES é de que, até o fim do ano, estejam prontas as partes de alvenaria e marcenaria da serraria, além da estrutura relacionada à roda d’água.
A Fazenda Santa Maria amplia a dimensão da proposta: o café deixa de ser apenas um produto agrícola e passa a fazer parte de uma narrativa territorial que reúne patrimônio, natureza, memória e turismo.
O que o visitante leva para casa
A Rota Cafés de Muniz Freire reúne dez experiências. Há degustação em diferentes métodos, visita a lavouras, colheita simbólica, torra, trilhas, cachoeiras, gastronomia, mel, tilápia, receitas caseiras e contato direto com os produtores.
Na Cafeteria Delícias do Caparaó, a experiência inclui cafés especiais preparados em dois métodos, acompanhados de chocolate, castanhas e queijos locais. No Louir Cafés Especiais, o visitante pode conhecer a lavoura, a estufa e o terreiro e participar de uma colheita simbólica.
O Parque das Tilápias combina natureza, trilhas, cachoeira e gastronomia. No Alto Fioresi, a visita resgata a história da família e termina com receitas típicas. No Sítio Alto Bom Destino, o café divide espaço com trilha pelo cafezal e degustação de mel.
Há ainda experiências no Sítio Vista Alegre e Café Pastore, Café Vale do Ipê, Alto Ribeiro Cafés Especiais e Sítio Figueiredo. O projeto não pretende transformar todas as propriedades em um modelo único. Ao contrário, a proposta parte justamente daquilo que cada família tem de diferente. É essa diversidade que transforma a rota em algo maior do que um roteiro de degustação.
Um novo caminho para quem vive do café
Em Muniz Freire, o turismo ainda está em fase de estruturação. Há estradas que precisam melhorar, propriedades que necessitam de adequações e empreendedores que ainda estão aprendendo a transformar hospitalidade em negócio.
As primeiras mudanças já são concretas. José Louir está construindo uma estrutura para receber turistas. Maria Aparecida transformou a própria cozinha em parte da experiência. Eduardo voltou para o campo depois de trabalhar em Vitória. Tatiana e as irmãs transformaram uma tradição de cinco gerações em marca e cafeteria.
As histórias são diferentes, mas têm um ponto em comum: o café continua no centro. O que mudou foi a forma de enxergar o que existe ao redor dele. A lavoura virou cenário. A receita de família ganhou espaço na experiência. A torra passou a ser compartilhada. A história do produtor virou parte do produto. E uma propriedade que antes recebia apenas amigos começou a receber visitantes dispostos a pagar para conhecer aquele cotidiano.
Nesse processo, o cooperativismo aparece como uma ponte entre iniciativas que já existiam e novas oportunidades que ainda estavam por ser construídas.
A Cresol articulou o projeto e oferece acesso a soluções financeiras e apoio aos empreendedores. O Sistema OCB/ES ajudou a conectar parceiros e fortalecer a dimensão cooperativista da iniciativa. O Sebrae entrou com consultoria e capacitação. A prefeitura participou da estruturação e trabalha para ampliar as condições de acesso e infraestrutura. E os produtores colocaram aquilo que nenhuma instituição poderia criar por eles: suas próprias histórias.
No fim, o que está sendo vendido em Muniz Freire não é apenas café. É a possibilidade de conhecer quem planta, quem colhe, quem torra, quem prepara e quem decidiu permanecer na terra para construir ali o próximo capítulo da própria família.
E talvez esteja justamente aí a principal transformação da Rota Cafés: o café, que durante gerações sustentou famílias, começa agora a sustentar também novas formas de viver, empreender e receber pessoas no campo.