Cacoal no centro do novo mapa do café brasileiro

Última atualização: 02/09/2026 às 11:49

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Destaque no Globo Rural, município reúne produtores premiados, famílias pioneiras, tecnologia e cafés especiais que ajudaram a mudar a imagem do robusta produzido na Amazônia.

Cacoal voltou a ocupar espaço de destaque no cenário nacional da cafeicultura. Em reportagem exibida pelo Globo Rural, da TV Globo, no domingo, 30 de agosto, o município apareceu como
uma das referências da transformação que mudou o perfil do café produzido em Rondônia.

O programa mostrou uma cadeia produtiva que deixou de ser associada apenas à produção em grande escala e passou a incorporar conceitos como seleção genética, colheita controlada, fermentação, secagem, análise sensorial, cafés especiais e valorização da origem.

Em Cacoal, essa transformação pode ser medida tanto pelos resultados obtidos em concursos nacionais quanto pelas propriedades que se tornaram referência para produtores, técnicos, pesquisadores e compradores de outras regiões do país.

A mudança não ocorreu de uma safra para outra. Ela foi construída por famílias que permaneceram no campo, produtores que selecionaram plantas, técnicos, pesquisadores e uma geração que passou a tratar o robusta como um café de qualidade.

A família Bento e a transformação de uma propriedade rural

Um dos exemplos apresentados nessa trajetória é o da família Bento, em Cacoal. No Sítio Rio Limão, Ronaldo da Silva Bento, Deigson Mendes Bento, Dione Mendes Bento e seus familiares transformaram a produção de café em uma atividade que reúne agricultura familiar, tecnologia, cafés especiais e turismo rural.

A propriedade tem aproximadamente 12 hectares e sustenta cinco famílias. O trabalho de seleção de plantas, manejo, colheita, fermentação, secagem e armazenamento permitiu elevar a produtividade e melhorar a qualidade do produto.

O reconhecimento ultrapassou os limites do setor produtivo. O sítio passou a receber visitantes interessados em conhecer todas as etapas, da lavoura à xícara, e entrou no circuito de turismo rural ligado ao café.

A experiência da família demonstra uma das mudanças mais importantes ocorridas na cafeicultura local: em vez de comercializar apenas o grão, parte dos produtores passou a agregar valor por meio da marca, da qualidade, do processamento e da própria história da propriedade.

Pioneiros ajudaram a mudar a lavoura

A modernização do café de Cacoal começou antes de os robustas amazônicos alcançarem projeção nacional. Entre os nomes associados a esse processo está o produtor e viveirista Anerlei Sérgio
Kalk
.

Kalk venceu, em 2016, o primeiro Concurso de Qualidade de Café Canéfora de Rondônia. O trabalho de seleção de plantas com melhor desempenho e qualidade de bebida ajudou a disseminar materiais clonais que posteriormente seriam utilizados por outros produtores.

Outro nome ligado a essa fase é Nivaldo Ferreira Laethe, reconhecido entre os produtores e viveiristas que trabalharam com a seleção e multiplicação de mudas clonais.

Esse trabalho realizado dentro das propriedades, aliado à pesquisa e à assistência técnica, contribuiu para substituir lavouras menos produtivas e melhorar o padrão do café produzido na região.

Cafés de Cacoal chegaram ao pódio nacional

Os resultados de produtores do município em concursos passaram a confirmar que a transformação não estava restrita à produtividade. O café produzido em Cacoal também começou a conquistar espaço pela qualidade da bebida.

João Alves da Luz, do Café da Luz, conquistou em 2022 o segundo lugar entre os cafés canéforas no Coffee of the Year, uma das principais competições realizadas durante a Semana Internacional do Café.

Em 2024, o produtor voltou a ganhar destaque ao vencer o Prêmio CNA Brasil Artesanal com um café fermentado produzido em sua propriedade. A família também avançou no beneficiamento e na comercialização direta do produto.

Outra produtora de Cacoal, Lucilene de Jesus Maia Santos, conquistou o segundo lugar no Coffee of the Year de 2023, novamente colocando o município entre os principais produtores de cafés canéforas do Brasil.

Ao longo dos últimos anos, nomes como Tiago Novaes Duarte, André Kalk, Edorli Knaak, Aldair Zimmermann Schmidt, Antônio Alves Dias e Pedro Fernando Urbano também passaram a integrar o grupo de produtores reconhecidos por resultados obtidos na cafeicultura local.

Uma mudança de conceito

O café robusta deixou de ser avaliado apenas pela quantidade. O produtor passou a acompanhar ponto de maturação, genética, fermentação, secagem e perfil sensorial. O resultado foi a valorização de lotes especiais e o surgimento de marcas próprias.

Produção indígena amplia a identidade do Robusta Amazônico

A reportagem do Globo Rural também mostrou outro segmento que se tornou parte da nova identidade do café de Rondônia: a produção realizada por indígenas.

Nas terras do povo Paiter Suruí, a cultura passou a combinar geração de renda, permanência no território, fortalecimento comunitário e produção de cafés de alta qualidade.

Entre os produtores está o cacique Rafael Mopimop Suruí, cujo café já obteve pontuações expressivas em concursos voltados à produção indígena.

Outro nome ligado a Cacoal, Luan Mopib Gorten Suruí, também figurou entre os melhores colocados em competições estaduais, reforçando a presença indígena na cadeia dos cafés especiais.

Cacoal tornou-se ponto de encontro da cafeicultura

O protagonismo de Cacoal não depende apenas da quantidade produzida dentro de seus limites territoriais. A cidade consolidou-se também como centro de negócios, capacitação, pesquisa, comercialização e divulgação do café de Rondônia.

O município já recebeu encontros nacionais de degustadores, pesquisadores, produtores e compradores e sedia eventos voltados especificamente aos robustas amazônicos.

Essa estrutura criou uma relação direta entre Cacoal e a imagem do café produzido em Rondônia. Mesmo quando os grãos são cultivados em municípios vizinhos, é comum que a cidade funcione como ponto de referência para tecnologia, eventos, comercialização e formação técnica.

Matas de Rondônia deu identidade ao produto

A transformação ganhou também uma identificação territorial. Cacoal integra a região conhecida como Matas de Rondônia, formada por municípios produtores e áreas indígenas que compartilham características ambientais e produtivas.

A região conquistou Denominação de Origem para seus cafés canéforas, reconhecimento que estabelece relação entre as características do produto e o território onde ele é produzido.

Com isso, o café que durante décadas era comercializado simplesmente como robusta passou a chegar ao mercado identificado como Robusta Amazônico das Matas de Rondônia.

O antigo café vendido como matéria-prima passou a carregar origem, produtor, propriedade, pontuação, método de processamento e história.

A produtividade cresceu, mas a qualidade mudou o mercado

Rondônia também avançou de maneira expressiva em produtividade. A substituição de lavouras antigas por materiais clonais, a irrigação, o manejo nutricional e técnicas mais precisas elevaram o rendimento por hectare.

A principal mudança, porém, ocorreu na relação do produtor com aquilo que colocava no mercado. O café passou a ser colhido e processado de maneira diferente conforme o objetivo de cada lote.

O produtor passou a separar frutos maduros, controlar a secagem, testar fermentações, identificar materiais genéticos, armazenar os lotes com maior cuidado e conhecer o resultado do próprio café na xícara.

Essa mudança permitiu que parte da produção deixasse o mercado de café comum e ingressasse no segmento de cafés especiais, em que características sensoriais e origem agregam valor ao produto.

Presença no Globo Rural consolida uma trajetória

A presença de Cacoal na reportagem nacional não representa um fato isolado. Ela sintetiza uma mudança construída ao longo de anos por produtores, famílias, viveiristas, técnicos, pesquisadores,
instituições públicas e comunidades indígenas.

Anerlei Kalk e outros pioneiros participaram do início da seleção das plantas. Famílias como a dos Bento mostraram que uma propriedade pode combinar produção e turismo. João da Luz, Lucilene de Jesus Maia Santos e outros produtores levaram o nome do município às principais competições do setor.

Ao mesmo tempo, produtores Paiter Suruí ampliaram o significado do Robusta Amazônico, associando a produção de qualidade ao território indígena e à floresta.

São experiências diferentes que convergem para o mesmo resultado: Cacoal passou a ocupar posição central na divulgação, na evolução técnica e na construção da identidade do café produzido em Rondônia.

Protagonismo

No novo mapa brasileiro dos cafés especiais, Cacoal deixou de ser apenas um grande produtor para se tornar referência de uma transformação.

O município reúne a memória dos pioneiros, a experiência de famílias tradicionais, lavouras modernas, produtores premiados, pesquisa, turismo rural e a força dos povos indígenas. Quando o Robusta Amazônico ganhou espaço no Globo Rural, parte dessa história chegou novamente ao restante do Brasil.

Fonte: Tribuna Popular

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