Cientistas espalham 30 caminhões de polpa de café sobre terreno degradado e, 2 anos depois, árvores cobrem mais de 80% da área

Última atualização: 02/09/2026 às 12:03

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Teste sufocou o capim que dominava uma antiga área agrícola e criou condições para que árvores pioneiras avançassem sem que os pesquisadores plantassem uma floresta.

Por Raphael Simões | Tribuna de Jundiaí

Experimento realizado na Costa Rica mostrou que uma área coberta com polpa de café apresentou regeneração muito mais rápida que o terreno usado para comparação. – Foto: Tribuna de Jundiaí / Imagem ilustrativa gerada por IA

Nas imagens do experimento, a diferença entre dois terrenos vizinhos chama atenção. Em um deles, árvores jovens formam uma massa verde e escondem boa parte do chão. No outro, o capim continua dominando a paisagem.

O que separou os dois cenários foi uma intervenção pouco convencional: pesquisadores cobriram uma das áreas com cerca de 360 metros cúbicos de polpa de café, o equivalente a 30 cargas de caminhão. Dois anos depois, a vegetação com mais de dois metros de altura ocupava 82,55% da área tratada. Na parcela deixada sem o resíduo, eram 21,84%.

O experimento foi realizado em 2018 no sul da Costa Rica e publicado em 2021 pelos pesquisadores Rebecca J. Cole e Rakan A. Zahawi na revista científica Ecological Solutions and Evidence. O estudo não é novo, mas voltou a ganhar repercussão internacional e no Brasil em agosto de 2026.

Por que 30 cargas de polpa de café foram espalhadas sobre o terreno?

O teste aconteceu em Coto Brus, no sul da Costa Rica, em uma antiga área agrícola da Reserva Biológica Sabalito. Mais de 90% do terreno era dominado por gramíneas de pastagem introduzidas, principalmente espécies que conseguiam ocupar rapidamente o espaço e dificultavam a regeneração de outras plantas.

Em março de 2018, os pesquisadores despejaram 30 cargas de caminhão de polpa de café, aproximadamente 360 m³, sobre uma parcela de 35 por 40 metros. Uma retroescavadeira espalhou o material até formar uma camada de aproximadamente 40 a 50 centímetros.

A cerca de dez metros dali, outra parcela das mesmas dimensões permaneceu sem polpa. Ela serviria de comparação durante os dois anos seguintes.

A proposta não era plantar árvores no resíduo. O objetivo era testar se a polpa conseguiria remover alguns dos obstáculos que impediam a vegetação natural de voltar.

O capim praticamente desapareceu onde a polpa foi colocada

A primeira transformação aconteceu muito antes de as árvores dominarem a paisagem.

Três meses após a aplicação, a camada de polpa já havia perdido aproximadamente metade da espessura. Quando os pesquisadores verificaram o que acontecia por baixo, encontraram o capim sufocado e começando a se decompor. Pequenas plantas herbáceas, por outro lado, já apareciam sobre o material.

A camada de polpa aplicada no experimento chegou a cerca de 40 a 50 centímetros e ajudou a eliminar as gramíneas que dificultavam a regeneração natural. – Foto: Tribuna de Jundiaí / Imagem ilustrativa gerada por IA

Era justamente uma das barreiras que o experimento tentava derrubar. Na parcela sem tratamento, as gramíneas continuaram ocupando grande parte do solo. Na área coberta pela polpa, elas praticamente desapareceram.

A Universidade do Havaí, instituição à qual os pesquisadores estavam ligados, explica que a grande espessura da camada ajudou a sufocar as gramíneas. A decomposição do material também produz calor, intensificando esse efeito.

O que aconteceu debaixo da camada de resíduos

Enquanto a paisagem começava a mudar na superfície, outra transformação ocorria no solo.

As análises realizadas ao final do experimento encontraram concentrações significativamente maiores de carbono, nitrogênio e fósforo na área que recebeu a polpa. Outros nutrientes também aumentaram.

A combinação começou a alterar a disputa pelo espaço. As gramíneas que dominavam a antiga pastagem perderam terreno e espécies de árvores e arbustos típicas dos estágios iniciais de regeneração passaram a se estabelecer rapidamente.

A polpa, portanto, não se transformou diretamente em floresta. Ela mudou as condições do ambiente onde a regeneração precisava acontecer.

Dois anos depois, a diferença entre os terrenos era enorme

É neste ponto que aparecem os números mais expressivos do estudo.

Depois de dois anos, os pesquisadores compararam a estrutura da vegetação nos dois lados:

  • 82,55% da área com polpa estava coberta por vegetação com mais de dois metros; no terreno de comparação eram 21,84%;
  • a altura média da cobertura vegetal chegou a 4,26 metros na área tratada, contra 1,37 metro na outra parcela;
  • a densidade de caules lenhosos foi mais de 20 vezes maior onde a polpa havia sido aplicada.

Após dois anos, a altura média da cobertura vegetal chegou a 4,26 metros na área que recebeu a polpa de café, contra 1,37 metro na parcela sem tratamento. – Foto: Tribuna de Jundiaí / Imagem ilustrativa gerada por IA

Quase 40% da área tratada já apresentava vegetação acima de cinco metros. Na parcela sem o resíduo, essa faixa de altura ocupava pouco mais de 2% da superfície.

Ainda assim, dizer que uma floresta madura surgiu em apenas dois anos seria exagerado. O que se desenvolveu foi uma floresta jovem, formada principalmente por espécies pioneiras, justamente aquelas que costumam chegar primeiro durante o processo natural de regeneração.

A floresta não precisou ser plantada

Esse é um dos aspectos mais curiosos do experimento. Os pesquisadores não cobriram a área com mudas de árvores para produzir o contraste observado depois.

A intervenção aconteceu principalmente no ambiente: uma camada espessa de um subproduto agrícola eliminou boa parte do capim concorrente, modificou o solo e abriu espaço para que árvores pioneiras se estabelecessem.

Ao final do acompanhamento, cinco espécies de árvores e arbustos lenhosos haviam sido registradas na parcela com polpa. Na área de comparação, os pesquisadores encontraram apenas uma espécie de árvore colonizadora.

É justamente aí que o estudo ganha uma dimensão maior. A polpa representa uma parcela importante do material que sobra do processamento do café e normalmente precisa receber alguma destinação. Usar esse subproduto próximo às regiões produtoras para auxiliar projetos de restauração poderia aproximar dois problemas: o manejo de resíduos agrícolas e a recuperação de terras degradadas. Os autores apontam essa possibilidade como uma das razões para investigar a técnica.

O resultado impressiona, mas não significa que a técnica funcione em qualquer floresta

Os próprios resultados exigem cautela. O trabalho foi um estudo de caso realizado em um único local, sob condições específicas de clima, solo, vegetação e disponibilidade de resíduos.

Em outros ecossistemas, enriquecer demais o solo pode produzir um efeito indesejado. No Havaí, por exemplo, Zahawi alertou que condições mais ricas em nutrientes poderiam favorecer plantas invasoras em vez das espécies nativas que se pretende recuperar.

Também existem questões práticas, como a quantidade necessária de material e a distância entre a produção do resíduo e a área que precisa ser recuperada. Por isso, o estudo não apresenta a polpa de café como uma receita universal de reflorestamento. Os autores defendem novas pesquisas para entender em quais situações a estratégia pode ser eficiente.

Mas naquele terreno da Costa Rica, o contraste permaneceu difícil de ignorar. Onde antes o capim dominava a antiga área agrícola, surgiu uma cobertura de árvores com mais de quatro metros de altura média. Poucos metros adiante, sem a camada de polpa de café, a paisagem continuou muito mais próxima daquela encontrada no início do experimento.

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