Última atualização: 07/09/2026 às 20:02
![]()
Em Vitória, comércios que antes só vendiam cafezinho e espresso passaram a oferecer bebida gelada com leite, xarope e cobertura
Por Matheus e Marcus Magalhães | Tribuna Online

Nos Estados Unidos, quase uma em cada cinco xícaras de café bebidas por dia já é gelada | Foto: Canva
Seu pai tomava cafezinho coado, quente, na xícara pequena, três vezes ao dia, sem variar. Você bebe um cappuccino tradicional, numa cafeteria à tarde.
Seu filho bebe cold brew com baunilha, gelado, numa garrafa de vidro que carrega pro escritório. Entre essas cenas cabe uma família inteira. E cabe também uma mudança de mercado que está acontecendo mais rápido do que parece.
Nos Estados Unidos, quase uma em cada cinco xícaras bebidas por dia já é gelada, mesmo em pesquisa feita no inverno. O consumo de cold brew (cafés extraídos a frio, por infusão) subiu 31% em pouco mais de um ano, puxado por gente entre 18 e 35 anos.
Na China, país de tradição em chá, a rede Luckin Coffee faturou 49 bilhões de yuans em 2025, alta de 43% no ano, boa parte vinda de bebidas geladas e receitas que misturam café com frutas, leite e xarope.
A Starbucks respondeu na mesma moeda: as vendas de chá gelado por lá mais que dobraram. Aqui no Brasil o quadro é parecido, só que com uma camada a mais.
A Abic registrou alta de 2,44% no consumo entre janeiro e abril deste ano, recuperação depois de um 2025 fraco. A Conab projeta safra recorde de 66,7 milhões de sacas. O brasileiro está bebendo mais café, não menos. Só que está bebendo de um jeito diferente.
Em Vitória já dá pra ver isso na prática. Comércios que antes só vendiam cafezinho e espresso passaram a oferecer bebida gelada com leite, xarope e cobertura.
É tentador ler esse movimento como modismo de geração jovem que não aguenta café puro.
Porém, achamos essa leitura rasa e preguiçosa. O café está mudando de formato, e formato é onde a cadeia decide quem ganha dinheiro. Aí entra um detalhe técnico que interessa direto ao Espírito Santo. O conilon, que produzimos em escala aqui no Estado, tem comportamento particularmente bom em extração a frio.
A água gelada demora mais pra puxar os compostos que deixam o café amargo. Assim, a variante aparece com o corpo achocolatado que é a marca dele, sem a aspereza que incomoda quem bebe puro e quente.
E carrega quase o dobro de cafeína por xícara em comparação ao arábica, exatamente o que a indústria de bebida gelada busca quando dilui o café com leite, gelo e xarope.
Não é exagero dizer que essa onda de consumo pode virar uma janela de valorização pro conilon capixaba, desde que a indústria saiba contar essa história pro mercado certo.
O grão tratado por décadas como parente “inferior” do arábica tem, agora, um encaixe técnico que poucos estão explorando com a força necessária.
O café não vai deixar de ser bebido, só deixará de caber apenas numa única xícara. Quem entende a cadeia de perto sabe reconhecer, nessa mudança de hábito, uma oportunidade.