Do florescimento ao grão, El Niño desafia o café

Última atualização: 08/09/2026 às 10:39

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Fenômeno climático coloca cafeicultura brasileira sob pressão. Foto: Divulgação Ihara

Calor, déficit hídrico e mudanças nas chuvas podem alterar fisiologia da planta, calendário da cultura e pressão fitossanitária

Não será apenas o volume de chuva que definirá como os cafezais brasileiros atravessarão os próximos meses. Quando a água chegar, por quanto tempo permanecer disponível e quais temperaturas acompanharão essas precipitações podem ser tão importantes quanto o volume acumulado. Com a perspectiva de intensificação do El Niño, essa combinação coloca diferentes fases da próxima safra sob atenção.

Os efeitos também podem aparecer em direções aparentemente contraditórias. Uma chuva antecipada pode estimular a abertura das flores, enquanto períodos posteriores de seca e calor podem prejudicar pegamento e enchimento dos frutos. Ao mesmo tempo, umidade e temperatura alteram o ambiente para doenças, pragas e plantas daninhas. Alertas divulgados por Agroallianz e IHARA convergem justamente nesse ponto: o manejo precisará acompanhar o cafeeiro durante todo o ciclo.

A IHARA cita projeções climáticas de órgãos federais que apontam intensificação do El Niño no segundo semestre de 2026, com elevada probabilidade de intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão.

A distribuição das chuvas será decisiva. Após o período seco, o retorno da umidade estimula o florescimento. Precipitações antecipadas podem, portanto, adiantar floradas e alterar o calendário da cultura. Algumas regiões produtoras já registraram abertura antecipada de flores, embora essas primeiras floradas possam ser menos intensas que a principal, normalmente concentrada entre setembro e outubro.

O risco não termina quando os frutos estão formados. Déficit hídrico, precipitações mal distribuídas, temperaturas elevadas e baixa umidade podem interferir no pegamento, formação e enchimento dos grãos.

Segundo Ricardo Teixeira, engenheiro agrônomo, pesquisador e consultor citado pela Agroallianz, a falta de água reduz absorção e transporte de nutrientes e interfere na fotossíntese. Temperaturas muito altas podem prolongar o fechamento dos estômatos, diminuindo a transpiração e dificultando a regulação térmica da planta, com possíveis reflexos tanto na produtividade quanto na qualidade da bebida.

“É necessário preparar as lavouras não apenas durante a florada, formação dos frutos ou enchimento dos grãos, mas ao longo dos 12 meses do ano”, afirma Teixeira.

Clima também muda pressão sanitária

A IHARA acrescenta outra dimensão ao alerta. A combinação entre precipitação e temperatura pode criar condições mais favoráveis a doenças como ferrugem-do-cafeeiro e mancha de phoma. Bicho-mineiro e broca-do-café também estão entre as pragas que exigem acompanhamento.

“Além dos efeitos diretos sobre a florada e o desenvolvimento dos frutos, a mudança no comportamento das chuvas e das temperaturas pode alterar a pressão fitossanitária das lavouras”, afirma Frederico Gianasi, engenheiro agrônomo de Desenvolvimento de Mercado da IHARA. Para ele, o monitoramento precisa acompanhar todas as fases da cultura.

O manejo de plantas daninhas também ganha importância porque a competição por água, luz e nutrientes tende a pesar mais quando os recursos disponíveis ao cafeeiro estão limitados.

A Agroallianz destaca irrigação, quando viável, saúde do solo, nutrição e estratégias voltadas ao fortalecimento fisiológico como ferramentas para aumentar a capacidade de resposta das plantas.

Os dois alertas apontam, portanto, para uma mudança importante de perspectiva. O El Niño não representa um único problema a ser enfrentado em determinado momento da safra. Ele pode alterar uma sequência de processos interligados, fazendo do acompanhamento contínuo da lavoura uma das principais ferramentas para proteger produtividade e qualidade.

Fonte: Agro Revenda

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