O que falta ao café capixaba não está na produção, mas na narrativa

Última atualização: 09/09/2026 às 18:52

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Brasil, Estados Unidos, Colômbia e Vietnã estiveram representados no Vitória Coffee Summit, realizado nos dias 20 e 21 de agosto, no Cais das Artes. Entre os convidados estava William “Bill” Murray, presidente e CEO da National Coffee Association, entidade que representa boa parte da indústria cafeeira americana.

Pela primeira vez no Brasil, lideranças do maior mercado consumidor se encontraram com representantes dos 3 maiores países produtores e, só isso já diz muito sobre o que aconteceu em Vitória, mas foi uma resposta dele que ficou na minha cabeça.

Ao ser perguntado sobre como o Brasil poderia melhorar sua imagem lá fora, especialmente diante de países como a Colômbia, que construiu durante décadas uma associação fortíssima entre sua origem e café de qualidade, Murray apontou para a comunicação.

O Brasil já produz muito, produz bem, desenvolveu tecnologia, aumentou a qualidade e tem histórias concretas para contar sobre sustentabilidade. O ganho agora também passa por fazer essas histórias atravessarem fronteiras. Eu sei, parece bem lógico, mas só depois que alguém fala.

Até porque o próprio CEO do NCA, em entrevista durante sua passagem por Vitória, definiu o café brasileiro a partir de uma combinação difícil de encontrar em qualquer outra origem: eficiência, qualidade e volume. Ele também já conhecia de perto a produção capixaba e falou sobre o cuidado com a terra que encontrou aqui. Ele disse que temos conteúdo, mas precisamos fazê-lo circular. E talvez o próprio Vitória Coffee Summit tenha sido uma boa demonstração disso antes mesmo do executivo norte-americano formular sua resposta.

Durante alguns dias, empresários, produtores, exportadores e representantes de mercados internacionais vieram para Vitória, conheceram nosso café, a logística, empresas e algumas das pessoas que fazem essa cadeia funcionar. A cidade entrou na agenda de quem toma decisões num mercado global e esse tipo de evento faz algo que planilhas de produção dificilmente conseguem fazer sozinhas: criar memórias.

Alguém retornou aos Estados Unidos sabendo um pouco mais sobre o Espírito Santo. Outro para a Colômbia tendo conhecido um produtor daqui. Um executivo vietnamita passa a associar Vitória a café, porto, comércio e negócios.

A Colômbia entendeu isso há muitas décadas. Juan Valdez talvez seja um dos casos mais conhecidos de construção de marca de origem no mundo. Houve produto, evidentemente, mas também uma decisão contínua de contar aquela história até que o “café colombiano” adquirisse significado na cabeça do consumidor.

E foi aí que a fala de Bill Murray saiu do café e entrou em outro lugar da minha cabeça. Quantas empresas têm um bom produto escondido atrás de uma comunicação ruim?

Quantos negócios passam meses mexendo no planejamento, no posicionamento, no serviço, no site, no nome e no PowerPoint quando existe uma ideia boa ali dentro que ainda foi pouco explicada?

Comunicar melhor, insistir, ganhar clareza e construir percepção costuma ser um trabalho bem menos cinematográfico.

O café capixaba levou décadas para construir a qualidade que tem hoje. Vitória levou décadas formando sua relação com esse comércio. Empresas levaram anos desenvolvendo conhecimento, relações e produtos.

O Vitória Coffee Summit colocou parte disso diante de quem precisava enxergar.

Talvez essa tenha sido uma das melhores imagens daqueles dois dias no Cais das Artes: enquanto discutíamos como contar melhor ao mundo aquilo que fazemos por aqui, Vitória já estava fazendo exatamente isso.

Edição 2026 do Vitória Coffee Summit. Foto: Fabrício Saiter

Fonte: Sim Notícias

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