Última atualização: 12/09/2026 às 21:39
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Cafeína pode provocar sensação de calma em algumas pessoas com TDAH, mas também piorar ansiedade e sono; psicóloga explica as diferenças
Por Izabele Vasconcelos | O Povo

Pessoas com TDAH podem reagir de forma diferente ao café, sentindo mais calma ou pouca alteração; entenda o papel da cafeína no cérebro
O café é conhecido por aumentar o estado de alerta, mas algumas pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) relatam uma reação diferente: depois de consumir a bebida, sentem menos agitação, maior concentração ou até sonolência.
A explicação está relacionada às particularidades do funcionamento cerebral de pessoas com TDAH, especialmente na regulação da atenção e dos níveis de alerta.
Em entrevista ao O POVO, a psicóloga clínica comportamental e neuropsicóloga, Anaydi Aguiar, explica que a resposta à cafeína não é igual para todos e também sofre influência de fatores como genética e qualidade do sono.
Por que o café pode dar sono em quem tem TDAH?
A cafeína é uma substância estimulante, mas seus efeitos podem ser percebidos de maneiras diferentes por pessoas com TDAH. De acordo com Anaydi Aguiar, o cérebro de quem tem o transtorno processa neurotransmissores como dopamina e noradrenalina de maneira particular.
Por isso, em alguns casos, em vez de provocar mais agitação, o café pode contribuir para uma sensação de maior organização dos pensamentos e da atenção. A psicóloga ressalta, porém, que isso não acontece necessariamente com todas as pessoas com TDAH.
Estudos investigam justamente essas diferenças individuais na resposta à cafeína. Além das características relacionadas ao TDAH, genética, hábitos e qualidade do sono podem influenciar a forma como cada organismo reage à bebida.
Café pode diminuir a agitação mental?
Segundo Anaydi Aguiar, algumas pessoas com TDAH podem perceber uma redução da agitação mental após consumir café. Isso ocorre porque a cafeína interfere em mecanismos ligados ao estado de alerta e à fadiga.
A substância atua principalmente bloqueando os receptores de adenosina, um composto associado ao sono e ao cansaço. Ao fazer isso, a cafeína pode aumentar temporariamente o estado de alerta e influenciar a atenção.
A psicóloga explica que essa sensação não significa que o café esteja “sedando” o cérebro. Em algumas pessoas com TDAH, a percepção de calma pode estar relacionada a uma melhora temporária na autorregulação e na capacidade de direcionar a atenção.
Quem tem TDAH precisa de mais café?
Não necessariamente. A ideia de que pessoas com TDAH precisam consumir grandes quantidades de café para sentir algum efeito é, segundo Anaydi, um mito comum.
A resposta varia de uma pessoa para outra. Enquanto alguns indivíduos relatam melhora temporária na atenção ou uma sensação de maior organização mental, outros podem apresentar ansiedade, inquietação e dificuldade para dormir mesmo com quantidades menores.
A tolerância à cafeína, por sua vez, tende a funcionar de maneira semelhante à observada na população geral. Com o consumo frequente, o organismo pode se adaptar aos efeitos da substância, levando algumas pessoas a aumentar gradualmente a quantidade ingerida para alcançar a mesma sensação de alerta.
A especialista reforça que café não substitui o tratamento do TDAH. Embora a cafeína tenha efeito estimulante, ela não apresenta a mesma eficácia nem o mesmo mecanismo de ação dos medicamentos prescritos para o transtorno.
Por que a mente acelera na hora de dormir?
A dificuldade para desacelerar à noite é uma queixa frequente entre pessoas com TDAH. Segundo a psicóloga, parte desses indivíduos permanece em estado de alerta por mais tempo, além de poder apresentar alterações relacionadas ao relógio biológico.
Outro fator aparece justamente quando o dia termina. Com menos distrações externas, a mente pode voltar a preocupações, tarefas pendentes, ideias e lembranças que ficaram em segundo plano durante o dia.
É por isso que algumas pessoas sentem que os pensamentos ficam mais intensos quando deitam. Anaydi explica que isso não deve ser interpretado simplesmente como falta de disciplina ou como o hábito de “pensar demais”, mas como resultado de uma combinação entre funcionamento cerebral, hábitos de vida e padrões de sono frequentemente associados ao TDAH.
Café pode piorar ansiedade e sintomas do TDAH?
Sim. Embora algumas pessoas percebam benefícios temporários na concentração, a cafeína também pode intensificar determinados sintomas, principalmente quando consumida em excesso ou usada para compensar noites mal dormidas.
Como estimulante do sistema nervoso central, a cafeína pode ajudar na concentração e na clareza mental para algumas pessoas. Para outras, entretanto, pode provocar ou intensificar ansiedade, irritabilidade, inquietação e aceleração dos pensamentos.
Também podem aparecer manifestações físicas, como batimentos cardíacos acelerados e tremores. A resposta varia de acordo com fatores como genética, alimentação, qualidade do sono e presença de transtornos de ansiedade.
Quem tem TDAH precisa cortar o café?
Não necessariamente. Segundo Anaydi Aguiar, não existe uma recomendação geral para que toda pessoa com TDAH elimine completamente a cafeína.
O mais importante é observar a resposta individual. Algumas pessoas toleram pequenas quantidades pela manhã sem grandes problemas, enquanto outras podem apresentar palpitações, inquietação ou dificuldade para dormir mesmo após um consumo menor.
Como a cafeína permanece no organismo durante várias horas, a recomendação é ter atenção especialmente ao consumo no final da tarde e à noite. O objetivo é evitar que a bebida prejudique ainda mais o descanso.
A especialista reforça que a cafeína deve ser encarada como uma bebida de consumo individual, e não como estratégia para tratar sintomas do TDAH ou compensar uma rotina de sono inadequada.
Como desacelerar à noite tendo TDAH?
Criar uma rotina previsível pode ajudar o cérebro a entender que o período de descanso está chegando. Para isso, Anaydi indica pequenas mudanças de hábitos que podem ser incorporadas ao cotidiano.
Entre as estratégias estão:
- estabelecer horários consistentes para iniciar o ritual noturno;
- usar a cama prioritariamente para dormir, evitando trabalho e estudos no local;
- reduzir o uso de celular na cama;
- diminuir luzes, ruídos e atividades estimulantes cerca de uma hora antes de dormir;
- anotar tarefas e preocupações para reduzir a ruminação ao deitar;
- praticar atividade física regularmente, de preferência durante o dia ou no início da noite.
Fonte: O Povo