Última atualização: 15/09/2026 às 13:36
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Foto: Via assessoria
De pontos de consumo rápido a “terceiros lugares”, estabelecimentos passam a disputar permanência, convivência e recorrência do consumidor
Durante muito tempo, tomar um café fora de casa esteve associado a uma pausa rápida entre dois compromissos. Entrar, pedir a bebida, consumir e seguir para o próximo destino fazia parte da lógica de funcionamento de grande parte das cafeterias. Esse comportamento, porém, vem mudando — e com ele também muda o papel desses estabelecimentos nas cidades.
Hoje, uma cafeteria pode ser escritório, ponto de encontro, espaço para uma reunião, lugar para estudar ou simplesmente um ambiente para fazer uma pausa. O café continua sendo o produto central, mas já não é necessariamente o único motivo que leva o consumidor a escolher determinado estabelecimento.
A transformação está relacionada ao conceito de “terceiro lugar”, expressão utilizada para definir ambientes que ocupam uma posição intermediária entre a casa e o trabalho. Com jornadas mais flexíveis, maior valorização das experiências presenciais e novas formas de relacionamento social, as cafeterias passaram a ocupar esse espaço na rotina urbana.
O movimento também amplia a discussão sobre o que faz um cliente escolher — e principalmente retornar — a um estabelecimento.
“Hoje, o consumidor não escolhe uma cafeteria apenas pelo café. Ele escolhe o ambiente, a localização, o atendimento e a forma como aquele espaço se encaixa na sua rotina. O café pode ser o motivo da visita, mas a experiência é o que faz com que a pessoa queira voltar”, avalia Cristian Figueiredo, fundador da Mr. Black Café.
Quando permanecer passa a fazer parte do negócio
A mudança pode ser percebida em diferentes momentos do dia. Pela manhã, a cafeteria pode atender quem precisa apenas de um café para começar a rotina. Algumas horas depois, o mesmo espaço pode receber profissionais trabalhando no notebook ou realizando uma reunião. No período da tarde, pode se transformar em ponto de encontro ou ambiente para uma pausa.
Essa multiplicidade de usos modifica a própria lógica comercial do estabelecimento. A permanência deixa de ser necessariamente um problema — como ocorreria em um modelo baseado exclusivamente em giro rápido de mesas — e passa a ser parte da proposta de valor.
“Quando uma cafeteria consegue fazer parte da rotina do consumidor, ela deixa de disputar apenas uma venda. Passa a construir recorrência. É por isso que produto, ambiente e atendimento precisam estar conectados. Não basta servir um bom café se a experiência como um todo não faz sentido para o cliente”, afirma Figueiredo.
É uma mudança particularmente relevante para pequenos negócios, que representam parcela expressiva do segmento e precisam encontrar formas de diferenciação em um mercado com diversas opções de consumo.
Qualidade continua sendo ponto de partida
A transformação da cafeteria em espaço de convivência não significa que o produto perdeu importância. Pelo contrário. O crescimento do interesse por cafés de qualidade, diferentes métodos de preparo e origem dos grãos aumentou a exigência sobre aquilo que chega à xícara.
A diferença é que o consumidor passou a avaliar o conjunto.
Dados apresentados pelo Sebrae indicam que o mercado global de coffee shops foi estimado em US$ 178 bilhões em 2024, com perspectiva de crescimento anual de 4,3% até 2030. No Brasil, o setor reúne cerca de 482 mil empresas relacionadas à atividade, em sua maioria pequenos negócios.
Nesse ambiente, café, cardápio, atendimento, localização, arquitetura e identidade da marca deixam de funcionar como elementos independentes. Eles precisam compor uma experiência coerente.
O desafio está justamente em equilibrar duas demandas que poderiam parecer opostas: conveniência e acolhimento.
“Existe uma busca cada vez maior por conveniência, mas isso não significa que o consumidor queira uma experiência impessoal. O desafio das cafeterias é conseguir ser prática e, ao mesmo tempo, acolhedora. É oferecer velocidade quando o cliente precisa e proporcionar permanência quando ele deseja ficar”, explica Cristian.
O café como ponto de encontro
Há também uma dimensão social nessa transformação.
O convite “vamos tomar um café” já não precisa significar apenas o consumo da bebida. Pode representar uma conversa, uma reunião profissional, uma entrevista, um encontro entre amigos ou simplesmente a procura por algumas horas fora de casa.
A cafeteria passa, portanto, a funcionar como um ponto de conexão dentro da cidade.
Essa característica ganha ainda mais relevância em centros urbanos nos quais os espaços públicos e privados de convivência são disputados. Um estabelecimento que consegue oferecer ambiente confortável, boa localização, atendimento adequado e identidade própria pode se tornar parte da rotina de seus frequentadores.
“As cafeterias ganharam novos significados. Elas passaram a fazer parte de momentos diferentes da vida das pessoas. Isso amplia o papel do negócio e exige que as marcas entendam melhor quem é o seu consumidor e o que ele espera encontrar naquele espaço”, afirma Figueiredo.
Fundada em Belo Horizonte em 2006, a Mr. Black Café acompanha essa transformação ao longo de duas décadas. A marca nasceu com foco em cafés de qualidade e desenvolveu, ao longo de sua trajetória, um modelo que combina produto, ambiente e atendimento.
Ao completar 20 anos, a rede encontra um mercado no qual a bebida continua sendo protagonista, mas o contexto em que ela é consumida ganhou importância na decisão do cliente.
Produto atrai. Experiência cria recorrência
A mudança de comportamento coloca uma questão estratégica para as cafeterias: como fazer com que uma visita se transforme em hábito?
A resposta passa por uma combinação de fatores. A qualidade dos grãos pode despertar o interesse inicial. Um cardápio adequado pode ampliar o consumo. O ambiente pode prolongar a permanência. O atendimento pode estabelecer uma relação. E a consistência de toda essa experiência pode transformar uma visita ocasional em recorrência.
“O mercado está mostrando que não existe mais uma única razão para alguém frequentar uma cafeteria. Algumas pessoas procuram o café, outras procuram praticidade, outras querem um lugar para trabalhar ou encontrar alguém. Quanto mais a marca entende esses diferentes momentos, maior é sua capacidade de criar relacionamento com o cliente”, afirma Cristian.
A tendência indica que as cafeterias continuarão ampliando seu papel dentro da vida urbana. Não necessariamente porque o consumidor deixou de valorizar o café, mas porque passou a valorizar onde, como e com quem ele o consome.
Uma boa xícara pode continuar sendo a porta de entrada. Mas, em um mercado orientado pela experiência, fazer o cliente permanecer — e principalmente voltar — depende de tudo aquilo que acontece ao redor dela.
Leitura de Mercado | Turismo&Eventos
A transformação das cafeterias acompanha uma mudança maior no consumo urbano: o valor de um estabelecimento não está mais restrito ao produto comercializado. Ambiente, conveniência, identidade e possibilidade de convivência passaram a influenciar diretamente a decisão do consumidor.
Para o turismo, esse movimento também é relevante. Cafeterias podem funcionar como pontos de descoberta de bairros, cidades e culturas locais, especialmente quando trabalham produtos, arquitetura e identidade regional. Para o viajante, sentar para tomar um café pode ser também uma forma de observar a vida cotidiana do destino.
No mercado, o principal ativo passa a ser a recorrência. A cafeteria que consegue se integrar a diferentes momentos da rotina deixa de depender exclusivamente de uma visita ocasional e passa a construir frequência. É nesse ponto que a frase que resume o movimento ganha força: o café pode ser o motivo da visita, mas a experiência é o motivo do retorno.
Fonte: Jornal Turismo e Eventos