Última atualização: 17/09/2026 às 13:15
![]()
Avanço da produção amplia oferta, enquanto clima e próximo ciclo mantêm incertezas no mercado

Mercado brasileiro de café exportou recorde de 4,16 milhões de sacas em agosto, maior volume para o mês desde 1990 (foto: divulgação)
O mercado brasileiro de café ganhou ritmo comercial em agosto, com exportações recordes de 4,16 milhões de sacas de 60 quilos. O volume, que considera café verde, torrado e solúvel, é o maior já registrado para o mês desde o início da série histórica do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), em 1990.
O movimento ocorre em um momento de maior disponibilidade de café da safra brasileira e de retomada das compras por parte do mercado internacional. O arábica manteve embarques firmes, enquanto o robusta também contribuiu para ampliar as exportações.
Para o coordenador de agronegócio da Univates, de Lajeado, Alexandre Schneider, o resultado deve ser analisado principalmente sob a ótica comercial. A combinação entre maior oferta brasileira e interesse dos compradores externos aumentou a movimentação, mas não significa, necessariamente, uma disparada imediata dos preços ao consumidor.
Segundo ele, parte do café comercializado em agosto estava disponível após dificuldades de secagem provocadas pelas chuvas de julho. Com a melhora das condições, produtores conseguiram preparar os grãos para a venda, ampliando a oferta no mercado.
Outro fator importante foi o comportamento dos compradores internacionais. Diante das incertezas sobre a próxima safra, importadores passaram a recompor estoques e antecipar negócios.
A estratégia também está relacionada ao histórico recente do mercado. Após problemas climáticos que reduziram a produção, especialmente com as ondas de calor e incêndios registrados em 2024, as cotações chegaram a aproximadamente US$ 4,10 por libra-peso no início de 2025. Atualmente, estão próximas de US$ 2,80, segundo Schneider, ainda acima da faixa considerada habitual, entre US$ 2 e US$ 2,20.
Maior oferta muda ritmo dos negócios
A entrada da nova safra brasileira ampliou a disponibilidade física e contribuiu para a correção das cotações. Conforme análise do Itaú BBA, o contrato de café arábica para dezembro de 2026 encerrou 10 de setembro a 288,15 centavos de dólar por libra-peso, queda de 8% em 30 dias. O conilon, negociado internacionalmente como robusta, recuou 7% no mesmo intervalo, para US$ 3.524 por tonelada.
A maior oferta também reduziu a necessidade de pagamento de prêmios para originar café. Com mais produto disponível, compradores encontram maior facilidade para formar lotes, enquanto os preços passam a refletir com mais intensidade a qualidade e as condições de cada produto.
Nesse ambiente, os produtores brasileiros mantêm uma postura mais seletiva nas vendas. Segundo o Cepea, a maior capitalização nesta safra permite uma comercialização mais cadenciada, sem a mesma pressão por caixa observada em temporadas anteriores.
Compradores antecipam negócios
O mercado também começa a olhar para a safra 2027/28. As primeiras chuvas de setembro favoreceram as floradas em regiões produtoras, mas a continuidade das precipitações e o comportamento das temperaturas durante a primavera serão determinantes para o potencial produtivo.
A próxima safra de arábica ainda deverá ocorrer em um período de bienalidade negativa, o que aumenta a atenção sobre as condições climáticas.
Na avaliação de Schneider, a possibilidade de um verão mais quente também pode ter influenciado a decisão dos importadores de antecipar compras. Com preços ainda elevados, parte do mercado prefere garantir produto agora a correr o risco de enfrentar novamente uma oferta menor e cotações mais altas.
Assim, o recorde de agosto representa não apenas um aumento dos embarques, mas também uma aceleração das negociações no mercado internacional de café. Para o produtor, o cenário combina maior disponibilidade de produto, preços ainda remuneradores em relação ao histórico e a possibilidade de comercializar a safra de forma escalonada.
No curto prazo, a tendência é de continuidade da volatilidade. O comportamento das chuvas, das floradas e das temperaturas será acompanhado de perto pelo mercado, com reflexos sobre as decisões de compra e venda.