Última atualização: 22/09/2026 às 12:08
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Mercado movimenta R$ 2 bilhões por ano no Brasil e leva empresas como Nestlé, Ambev e Seara a ampliar a oferta de bebidas e alimentos com o nutriente
Por Patrícia Basilio

Spaten Pro: cerveja com proteina — Foto: Divulgação/Arte Época Negócios
O que antes era associado principalmente a carnes, ovos, feijão e suplementos de academia agora aparece no achocolatado, café, água e até na cerveja. Impulsionada pela busca por bem-estar, longevidade, praticidade e, mais recentemente, pelo avanço das canetas emagrecedoras, a proteína ganhou espaço nas formulações e se tornou um dos principais vetores de inovação da indústria de alimentos e bebidas.
Os números ajudam a dimensionar a força dessa tendência. Os alimentos com proteína adicionada já movimentam cerca de R$ 2 bilhões por ano no Brasil e mais de US$ 50 bilhões no mundo, segundo dados da Euromonitor. A projeção é que o mercado brasileiro dobre de tamanho até 2028.
Levantamento da Worldpanel by Numerator também mostra que o faturamento da categoria de alimentos com proteína adicionada cresceu 12% no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025. O avanço foi duas vezes superior ao registrado pelas proteínas convencionais, como as carnes e os ovos.
Na Ambev, a onda de produtos proteicos alcançou uma categoria até então pouco associada ao nutriente: a cerveja. Lançada há cerca de um mês, a Spaten Pro não contém álcool e oferece 10 gramas de proteína por lata. A novidade reforça o portfólio de bebidas voltadas ao bem-estar da companhia, que já reúne opções sem glúten, sem álcool, sem açúcar, com menos carboidratos ou com adição de nutrientes, como Brahma Zero, Stella Artois Pure Gold, Corona Cero e Guaraná Antarctica Zero com fibras.
Desenvolvida no Centro de Inovação e Tecnologia (CIT) da Ambev, localizado no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Spaten Pro passou por mais de 100 protótipos ao longo de mais de três anos de pesquisa.
“O principal desafio era criar uma cerveja gostosa. Não queríamos uma bebida proteica com sabor de cerveja ou uma bebida à base de proteína. Tinha que ser, de fato, uma cerveja”, explica Gabriella Gallo, diretora de Inovações da Ambev.
A bebida ainda passa por uma fase de teste no mercado brasileiro. Para acompanhar a recepção do público, a Ambev utiliza dados do Zé Delivery, plataforma que reúne 27 milhões de usuários mensais e permite avaliar lançamentos, identificar ocasiões de consumo e coletar opiniões dos clientes. Os resultados ajudarão a orientar os próximos passos do produto, que já despertou o interesse de outros mercados e poderá ser comercializado internacionalmente.
A expansão do mercado proteico também reflete a estratégia da indústria de incorporar a proteína a sabores e hábitos já presentes na rotina do consumidor, como o café da manhã e o lanche da tarde.

Gabriella Gallo, diretora de inovações da Ambev — Foto: Divulgação
Na Nestlé, esse movimento levou à criação da linha Nescau Protein, que estreou em 2025 com a versão em pó. Neste ano, o portfólio ganhou uma bebida pronta para consumo, com 15 gramas de proteína em uma embalagem de 250 mililitros, sem adição de açúcares e sem lactose.
A companhia também passou a adicionar proteína a outras categorias, como aveia e café pronto para beber, além de ampliar a oferta de suplementos das marcas Nutren e Puravida.
Com a ampliação do portfólio, a Nestlé pretende atender consumidores de diferentes faixas etárias e níveis de renda, além de alcançar novas ocasiões de consumo. A estratégia é levar a proteína para além dos suplementos esportivos e incorporá-la a alimentos e bebidas já presentes no cotidiano. “É uma gama de produtos e categorias justamente para democratizar o acesso à proteína”, afirma Gisele Pavin, gerente executiva de nutrição, saúde e bem-estar da Nestlé Brasil.
Na avaliação da executiva, esse movimento ganhou força após a pandemia, quando os consumidores passaram a dedicar mais atenção à alimentação, à imunidade e aos níveis de vitaminas e minerais no organismo.
Mais recentemente, a popularização dos medicamentos análogos de GLP-1, conhecidos como canetas emagrecedoras, acrescentou um novo impulso a esse mercado. Como podem reduzir o apetite e a quantidade de alimentos ingeridos, esses medicamentos também podem provocar perda de massa muscular durante o emagrecimento, sobretudo quando não há acompanhamento adequado da alimentação e da atividade física.
Proteína na comida

Panelinhas com comida pronta adicionada com proteína da Seara — Foto: Divulgação
A adição de proteína também chegou às refeições prontas. No ano passado, a Seara lançou uma linha de pratos congelados com maior quantidade do nutriente. Neste ano, acrescentou ao portfólio almôndegas, lasanha à bolonhesa, fettuccine à bolonhesa e filé à milanesa. Os produtos contêm entre 15 e 24 gramas de proteína por embalagem, enquanto outros pratos da linha ultrapassam 30 gramas.
“Há 20 ou 30 anos, quando o consumidor buscava bem-estar, ele procurava produtos light ou diet. Com o passar do tempo, percebemos que ele não queria abrir mão do sabor. Hoje, ele quer aliar saúde ao sabor”, afirma Rafael Palmer, diretor de marketing da Seara.

Rafael Palmer, da diretor da Seara — Foto: Divulgação
Segundo o executivo, os produtos da linha proteica registram giro 10% superior ao de itens similares da própria companhia nos pontos de venda. O desempenho levou a Seara a ampliar o portfólio.
O hub de inovação da Seara já trabalha em lançamentos que poderão chegar às prateleiras dentro de dois ou três anos. O processo reúne chefs, nutricionistas, pesquisadores e profissionais de marketing. As receitas são submetidas à avaliação dos consumidores e passam por ajustes no tempero, na quantidade dos ingredientes e na textura antes de chegar ao mercado. “O desafio é transformar algo nutricionalmente correto em um produto gostoso e que caiba no bolso do consumidor”, diz Palmer.
Consumo consciente
A adição de proteína não significa que esses produtos são mais saudáveis. “É necessário avaliar o produto inteiro: quantidade de proteína por porção, qualidade da fonte proteica, teor de açúcares adicionados, gorduras saturadas, sódio, valor energético, lista de ingredientes e grau de processamento”, alerta Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN).
Segundo ela, alimentos e bebidas enriquecidos com proteína podem oferecer praticidade ou complementar necessidades específicas, mas não são indispensáveis para todas as pessoas.
“Muitas vezes, a alimentação habitual já fornece quantidade suficiente, e a inclusão de vários produtos enriquecidos apenas aumenta o consumo total e o custo, sem benefício adicional.”
No caso das cervejas com álcool, a especialista faz uma ressalva: “A adição de proteína não neutraliza os efeitos do álcool e não transforma uma bebida alcoólica em produto voltado à saúde, à hidratação ou à recuperação esportiva.”
Depois da proteína, as fibras

Gisele Pavin, gerente executiva de nutrição, saúde e bem-estar da Nestlé Brasil — Foto: Divulgação
A proteína pode ser apenas a porta de entrada para uma transformação mais ampla nas prateleiras. As gigantes de alimentos e bebidas já acompanham o crescimento do interesse por fibras, probióticos, prebióticos e produtos relacionados à saúde intestinal. “Hoje estamos falando de proteína. Amanhã, serão as proteínas com fibras”, prevê Gisele, da Nestlé.
Na Ambev, esse movimento já aparece no Guaraná Antarctica Zero com fibras. Gallo afirma que a saúde digestiva vem ganhando espaço nas pesquisas e no desenvolvimento de produtos.
Palmer também acredita que o consumidor passará a buscar soluções mais específicas, destinadas, por exemplo, à saúde intestinal ou cardiovascular. Outra mudança será o interesse pela procedência e pelas propriedades de diferentes tipos de proteína.
“Hoje ele está falando de proteína. Daqui a pouco, vai começar a perguntar se ela é de origem animal ou vegetal e quais propriedades cada uma oferece”, diz.
A expectativa é que essa maior atenção aos ingredientes leve à criação de produtos cada vez mais segmentados. Para a indústria, o desafio será equilibrar benefícios nutricionais, conveniência, preço e sabor, sem transformar a busca pela alimentação saudável em uma experiência excessivamente técnica.
A proteína pode ter aberto esse caminho, mas a próxima disputa das empresas será por produtos que ajudem o consumidor a cuidar de necessidades mais específicas sem abandonar os alimentos, sabores e rituais que já fazem parte de sua rotina.

Guaraná Antartica com fibras — Foto: Divulgação
Fonte: Época Negócios