Última atualização: 27/09/2026 às 14:13
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Bebida pode contribuir para a redução do risco de problemas cardiovasculares e para a proteção contra demências

Quando consumido de forma moderada, o café pode ser um aliado no envelhecimento.Bruno Todeschini / Grupo RBS
Em 2023, a pensionista Alzira Gonçalves, hoje com 87 anos, depois de um episódio de mal-estar, com grave falta de ar, sofreu um infarto. Diabética, ela, que tinha o hábito de estar sempre tomando um cafezinho, foi aconselhada pela família a adotar o descafeinado depois do episódio, mesmo sem orientação médica para isso.
— Por mim, teria continuado com o café normal. Meu neto e a esposa dele não tomam café de tipo nenhum. Eles que me induziram. No fim, a culpa do meu mal-estar acabou caindo sobre o coitado do café, mas não posso falar mal dele — conta Alzira, que confessa não negar um cafezinho normal quando vai lanchar fora e garante que fica bem.
Esse medo que a família da pensionista sente em relação ao café vem de uma fama antiga, de que a bebida poderia fazer mal para a saúde, causando, por exemplo, pressão alta e arritmia. Só que esse temor não se justifica. Pelo menos, é o que estudos recentes mostram e especialistas corroboram.
A nutróloga e coordenadora clínica da equipe de Terapia Nutricional do Hospital São Lucas da PUCRS, Carla Grzybowski, explica que existe a necessidade de individualizar caso a caso, mas que doses moderadas de café, de até 400 ml por dia — cerca de quatro xícaras —, são seguras e não estão associadas ao aumento de arritmias sérias.
Ela detalha que a dúvida sobre poder tomar a bebida é frequente entre os idosos que visitam seu consultório:
— Em relação ao infarto, não existe contraindicação formal automática pelo evento isolado. Se o paciente começar a apresentar coração acelerado, insônia, nervosismo ou tremores, aí sim a bebida pode ser desaconselhada. Uma xícara de café contém entre 60 mg e 100 mg de cafeína, o que é uma dose baixa. O consumo esporádico dificilmente trará efeitos adversos — explica.
A nutróloga também aponta:
— Ainda existem dados que observam a redução de risco de problema cardiovascular e a proteção contra demências e Alzheimer. E isto está ligado diretamente à cafeína. Ou seja, para estes casos, o descafeinado não consegue ajudar.
A médica, porém, detalha que a população idosa costuma ter um metabolismo mais lento, o que faz com que a cafeína permaneça circulando por mais tempo no organismo. Por isso, a dose precisa ser ajustada e o último cafezinho do dia, muitas vezes, deve ser antecipado — se antes era às 17h, melhor puxar para às 16h, e testar o quanto interfere no sono.

A família de Alzira Gonçalves recomendou que ela bebesse apenas café descafeinado.Bruno Todeschini / Grupo RBS
Benefícios
Em artigo para o The Conversation, oprofessor britânico de Ciências Biomédicas Justin Stebbing compilou o que a ciência já sabe sobre o consumo da bebida. Entre os benefícios, ele elenca que o café pode melhorar a saúde do coração e ajudar o cérebro, prevenindo até doenças mentais.
De acordo com Fernando Gerchman, endocrinologista do Hospital Moinhos de Vento, o consumo diário da bebida ainda tem importantes contribuições para quem tem 60 anos ou mais:
— O café reúne diversas substâncias bioativas e fitoquímicos benéficos, como magnésio, potássio, niacina e polifenóis. Esses compostos combatem o estresse oxidativo, que é o processo biológico associado ao envelhecimento celular, além de melhorarem a microbiota intestinal e ajudarem a regular o metabolismo de glicose e de gordura.
O médico complementa com a possibilidade de benefícios por longo período:
— Ao contrário de substâncias que promovem efeitos passageiros sem impacto duradouro, o consumo moderado e regular de café traz resultados consistentes à saúde no longo prazo, reduzindo o risco de diabetes tipo 2 e de doenças cardiovasculares. Existia a ideia de que o café aumentava o risco de arritmias por acelerar os batimentos, mas isso é um efeito pontual.
Pontos de atenção
Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), a geriatra Berenice Werle destaca que revisões científicas recentes mostram ainda que o café deixou de ser encarado apenas como um simples estimulante e passou a ser estudado como um potencial aliado de um envelhecimento com mais qualidade:
— Isso não significa que o café faça a pessoa viver mais tempo, mas ele contribui para que o tempo de vida seja acompanhado de mais saúde e funcionalidade, mantendo o idoso mais ativo e alerta. O processo de envelhecimento, muitas vezes, está associado ao inflammaging, uma inflamação crônica de baixo grau que favorece o desenvolvimento de doenças da idade. E evidências apontam que o consumo moderado e regular de café reduz os marcadores inflamatórios.
Berenice esclarece que estes benefícios estão associados ao café puro e que complementos comoaçúcar ou leite diminuem os efeitos positivosque a bebida traria sozinha.
Outra dúvida que costuma aparecer nas consultas médicas é se o café pode prejudicar no tratamento de quem enfrenta a osteoporose. Enquanto estudos não ligam diretamente o consumo da bebida com o surgimento da doença, Berenice dá uma recomendação que tranquiliza os idosos: não é preciso cortar do dia a dia, apenas fazer pequenos ajustes.

Quando sai para lanchar, ela ainda bebe um café normal.Bruno Todeschini / Grupo RBS
— O café interfere na absorção digestiva de cálcio e ferro. Por isso, deve-se evitar a prática de tomar o cafezinho imediatamente após as refeições principais, como o almoço, que costuma ser rica em feijão, carnes e vegetais.O ideal é aguardar de uma hora a uma hora e meia antes de tomar a bebida, garantindo que o organismo absorva os nutrientes do almoço — salienta a geriatra.
Outra questão importante é para quem tem sensibilidade gástrica ou gastrite: a cafeína pode causar desconforto. Então, pode-se optar pela bebida descafeinada. Além disso, o exagero nunca é bom, e o corpo dá sinais. Eles incluem ansiedade, nervosismo, tremores, insônia, arritmias e sensação de coração acelerado.
Para quem consome altas doses, a interrupção súbita pode provocar dores de cabeça. Ou seja, o ideal é estar dentro do consumo seguro e, por isso, uma boa estratégia é substituir parte das xícaras ao longo do dia pela versão descafeinada e, assim, equilibrar, sem precisar deixar de tomar o cafezinho.
Perguntas e respostas
O café faz mal para quem é 60+?
Em geral, não. O consumo moderado é considerado seguro e pode trazer benefícios à saúde. Mas é preciso estar alinhado com as recomendações médicas.
Quais benefícios o café pode trazer para o envelhecimento saudável?
O consumo moderado pode trazer ação antioxidante e anti-inflamatória, proteger a saúde cardiovascular e neurológica, reduzir o risco de diabetes tipo 2 e melhorar a cognição.
E para quem sofreu infarto, existe contraindicação?
Não há contraindicação formal automática. O consumo moderado, porém, deve ser evitado se houver sintomas como palpitações ou insônia.
Em relação à osteoporose, deve-se evitar beber café?
Não precisa cortar, apenas evitar consumir a bebida imediatamente após as refeições para não atrapalhar a absorção de cálcio e ferro.
Qual o consumo adequado por dia?
A dose recomendada é de duas a quatro xícaras pequenas diárias, ou seja, até 400 ml — que pode ir de 240 mg a 400 mg de cafeína.
E o que pode acontecer com quem exagera?
Passar da dose indicada pode causar ansiedade, tremores, dores de cabeça, insônia, aceleração dos batimentos cardíacos e desconforto gástrico.
Até que horas alguém 60+ pode tomar café?
Recomenda-se tomar o último cafezinho do dia por volta das 15h ou 16h, para evitar que a cafeína prejudique a qualidade do sono.
Quando deixar de tomar café definitivamente?
Se surgirem intolerâncias, arritmias constantes ou sintomas gástricos graves. Nestes casos, o ideal é procurar um médico e seguir as recomendações.