Última atualização: 28/09/2026 às 18:13
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Nove em cada dez pés de café arábica do Brasil vêm de variedades criadas num instituto fundado em 1887 no interior paulista // IMAGEM ILUSTRATIVA
Quem toma um café coado raramente pensa em onde a planta foi desenvolvida. Em Campinas, no interior de São Paulo, o Instituto Agronômico (IAC), criado no período imperial, desenvolveu as variedades que hoje respondem por cerca de 90% do café arábica cultivado no país, uma herança científica que passa despercebida em cada xícara.
Quais cafés criados em Campinas dominam as lavouras brasileiras?
São as cultivares Mundo Novo e Catuaí. Segundo o Instituto Agronômico, ligado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, as duas representam 90% do parque cafeeiro nacional e são as preferidas dos produtores pela rusticidade, pela produtividade, pela adaptação a diferentes regiões e pela qualidade da bebida.
A escala impressiona. De acordo com o Centro de Café Alcides Carvalho, do IAC, Mundo Novo e Catuaí correspondem à maior fração dos 90% dos mais de 4 bilhões de pés de café arábica plantados no Brasil, segundo estimativas. O instituto soma 66 cultivares de café arábica desenvolvidas desde sua criação.
Como o café levou à criação do instituto?
O café chegou antes da ciência. Segundo a página histórica do Centro de Café, o cafeeiro foi introduzido no Brasil em 1727, entrou em São Paulo pelo Vale do Paraíba e atingiu a região de Campinas em 1810. No início, era uma cultura nômade, que esgotava a terra em poucos anos por falta de reposição de nutrientes e de conservação do solo.
Foi para resolver esse tipo de problema que, em 1887, a pedido dos próprios produtores paulistas, surgiu a Estação Imperial de Campinas, que depois passaria a se chamar Instituto Agronômico. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) registra que a criação ocorreu em 27 de junho daquele ano, pelo imperador Dom Pedro II.
O que mudou com o café Catuaí?
O Catuaí trouxe plantas mais baixas e produtivas. Segundo o IAC, o lançamento do Catuaí Vermelho e do Catuaí Amarelo no início da década de 1970 modificou os sistemas de produção e permitiu levar o café a novas áreas, graças ao porte baixo, à rusticidade e à alta produtividade.
O ganho acumulado é grande. Da cultivar Típica, a primeira a chegar ao país, às atuais variedades mais compactas e resistentes a doenças, o trabalho contínuo de seleção do IAC somou um aumento de 240% na produtividade.
O que mais o Centro de Café guarda?
O instituto mantém um acervo vivo de plantas e algumas criações curiosas:
- Banco de Germoplasma: coleção de cerca de 30 mil cafeeiros de várias espécies do gênero, preservados em Campinas e Mococa, segundo a Embrapa.
- Café com pouca cafeína: a cultivar IAC 04 5125 tem teor reduzido de cafeína no grão, de 0,07%, segundo o Centro de Café.
- Variedades resistentes: a IAC 125 RN foi registrada com resistência à ferrugem e a nematoides, pequenos vermes que atacam as raízes.
Uma xícara com endereço
Por trás do café de todos os dias existe mais de um século de pesquisa feita em Campinas. As variedades nascidas ali ajudaram a transformar a lavoura brasileira e a espalhar o café por regiões onde ele antes não prosperava.
Você precisa conhecer Campinas e olhar para o café da manhã de outro jeito, sabendo que a planta por trás da xícara muito provavelmente pertence a uma variedade criada na cidade.