Última atualização: 27/09/2026 às 15:40
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O passado forja o futuro: as folhas e flores do cafeeiro
Prof. Paulo Mazzafera
Unicamp, Unifesp, Libérica Pesquisa Agrícola
O crescimento de folhas e flores ajuda a mostrar uma ideia importante da fisiologia vegetal: muitas vezes, a estrutura básica de um órgão é definida antes de ele atingir seu tamanho final. Isso significa que formação e crescimento não são exatamente a mesma coisa.
Nas folhas, essa separação é bem conhecida. Durante as fases iniciais do desenvolvimento ocorre intensa divisão celular, aumentando rapidamente o número de células. Nesta fase, a folha tem praticamente todas as células que ela terá quando atingir o seu tamanho máximo. Depois desta fase inicial, a divisão diminui ou praticamente cessa, mas a folha continua aumentando de tamanho por vários dias. Nessa fase, o crescimento ocorre principalmente porque as células já formadas aumentam de volume. Assim, o número de células pode estar praticamente definido quando a folha ainda está longe de sua área final. Esse comportamento foi demonstrado em várias espécies e parece ser algo comum em biologia vegetal. Por isso, um estresse precoce pode reduzir o número de células produzidas, enquanto um estresse mais tardio tende a afetar principalmente a expansão celular. São coisas diferentes!! O primeiro estresse limita o tamanho da folha e a fotossíntese, pois haverá menor área foliar. Já o estresse mais tardio, afeta a o processo de fotossíntese em si.
No cafeeiro, um princípio semelhante pode ser aplicado às flores, embora o desenvolvimento floral seja mais complexo. O que vemos na florada não é a formação completa de uma flor em poucos dias. Muito antes da abertura das flores, o cafeeiro já formou as gemas florais e organizou internamente todas as estruturas que irão originar sépalas, pétalas, estames e carpelo.
Esses botões começam a crescer em fevereiro/março, até determinado estágio (4-5 mm), e entram em uma condição de dormência. Quando ocorre chuva ou reidratação adequada, essa dormência é quebrada e o crescimento recomeça rapidamente. Em poucos dias, o botão aumenta bastante de tamanho e chega à antese, que é a abertura da flor.
É importante destacar que, nesse momento, a flor já está estruturalmente formada. Sépalas, pétalas, estames, anteras, estigma, estilete, ovário e demais estruturas florais já foram produzidos antes da florada, lá em fevereiro/março. A chuva não inicia a construção desses órgãos. O que ela faz é permitir que uma flor já organizada retome rapidamente o crescimento. A entrada de água restaura o turgor e promove intensa expansão das células já existentes, enquanto ocorre reativação da respiração, síntese de componentes celulares, transporte de fotoassimilados e conclusão da maturação funcional dos tecidos reprodutivos.
Assim, um estresse que ocorre meses antes da florada pode afetar a formação da flor e o potencial produtivo. Já um estresse próximo da antese atua sobre estruturas que já existem e pode comprometer sua expansão, a abertura das flores, a viabilidade do pólen e a fecundação.
Como a florada desse ano tem sido acompanhada de temperaturas amenas, isto deve garantir a ausência de estresses por alta temperatura e a polinização e o pegamento deve acontecer de forma bem adequada. No entanto, a intensidade de chuvas preocupa pelo lado sanitário.
Conclusão: a florada do cafeeiro deve ser entendida como a etapa final de um processo que começou muito antes. A planta forma antecipadamente suas estruturas florais, mantém os botões em crescimento reduzido e, quando recebe o estímulo ambiental adequado, principalmente água e condições térmicas favoráveis, retoma rapidamente o desenvolvimento. Em outras palavras, a chuva não forma a flor: a flor já está formada. A chuva permite que ela cresça, complete sua maturação funcional e se abra.
